A “boa incerteza” pode nos revigorar

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A palavra incerteza tem em seu significado a natureza de algo incerto, que incita dúvida, que leva à hesitação, à imprecisão. Sua origem vem do prefixo latino in, negativo, mais certanus, de certus, que quer dizer seguro, garantido, determinado; sua variante original é cernere, que significa distinguir, decidir, peneirar, separar. Uma das principais condições da natureza humana é a busca por respostas, pelo preenchimento de lacunas, por segurança, autopreservação, pela completude utópica da certeza. Tanto que este humano que vos escreveu iniciou esse texto buscando a certeza do significado e origem da palavra incerteza.
Nós, humanos, antes de nos reconhecermos como tal, éramos primatas, vivíamos o dia a dia, precisávamos nos alimentar hoje, nos proteger hoje, nos reproduzir hoje, descansar hoje. Com o processo de evolução desenvolvemos habilidade de imaginar. Desse modo criamos os primeiros instrumentos para caçar, começamos a cultivar e criar nosso alimento em um local confinado, não precisando mais migrar de um local para outro e podendo fixar residência em busca de conforto e segurança. Mesmo assim a vida ainda era mais simples e sob um certo controle.
O mundo de hoje é bem diferente do mundo dos primatas. Certa vez li um livro sobre transtornos de ansiedade em que o autor afirmou: “Chegará um tempo em que precisaremos absorver em um só dia a quantidade de informações que nossos avós absorviam em um ano”.
Nosso mundo está diferente e complexo. Em um clique temos acesso a pessoas e conhecimento em diversos lugares do mundo; nossos papéis sociais estão se modificando. Temos dificuldade de definir qual o nosso papel no meio em que vivemos. Muitas vezes não sabemos ao certo quem somos, para que somos e para onde vamos.
Para uma parcela das pessoas nada está muito claro. Recebo frequentemente em meu consultório pessoas dizendo: “não estou bem e não sei o porquê”. Somos bombardeados de informação o tempo todo, como se estivéssemos com um monte de pacotes nas mãos, sem conseguir enxergar o que há na frente. Tropeçamos, derrubamos a maioria, nos sentimos obrigados a pegar tudo de volta e culpados por não conseguir. Nossas mãos não dão conta. Quantas pessoas dormem planejando suas obrigações do dia e semana seguintes?
Temos mais medo e de um modo nocivo. Observo um número crescente de pessoas com sofrimento e adoecimento emocional. Estamos inseguros, nos sentimos obrigados a sermos agradáveis, bonitos, atléticos, com excelentes empregos, com ótima formação. Temos que ser excelentes esposas, maridos, bons de cama, ter estabilidade financeira, entre outros. Achamos que tudo isso nos trará certezas ou segurança. Não quero dizer que devemos abandonar tudo isso gratuitamente e que não são questões importantes, porque sim, elas são, dependendo do contexto.
Talvez um grande problema seja o modo como lidamos com isso, nos sentimos ameaçados pela incerteza de não atingir um resultado e quando pensamos que atingimos temos medo de perder. Por que você faz a maioria das coisas que faz? E como você faz? No meio de tudo isso você faz algo por querer? Não quero ser ingênuo ao ponto de dizer que conseguiremos viver exatamente como sonhamos. Como mencionei, creio que o mundo está mais complexo para maioria de nós.
Por outro lado, a “boa incerteza” pode nos revigorar, nos ajudar a fazer planos, a sonhar com coisas novas, a viver uma grande emoção. Como deve ser aventurar-se em algo novo e que não temos certeza do resultado final ou não nos importarmos com ele, mas que nos permite vivenciar o prazer da experiência quando o risco é consciente e vale a pena?
Quando foi a última vez que você se perguntou “como me sinto hoje?”, “O que eu poderia fazer apenas pela satisfação de fazer?”. A proposta de perguntas como essa não é lançar um olhar egoísta sobre si. Pelo contrário, é percepção de um olhar sensível a si e a sua relação com o mundo. Em meio a tantas incertezas, precisamos nos olhar um pouco mais de maneira genuína e sensível. Quando foi a última vez que você sonhou? E como você se relaciona com suas incertezas?

Claudio de Souza Alves, psicólogo

Como lidar com as incertezas?

Como lidar com a incerteza? Seguindo a ótica de um analista de sistemas, pode-se pensar: esta incerteza me atinge? Se não, OK, vida que segue. Se sim, quais seriam as consequências (listando o maior número provável de situações), que poderiam ser: a) é identificável? b) qual a causa? c) qual a frequência: imediatamente, a médio prazo, a longo prazo? d) posso conviver com ela? e) diz respeito só a mim? f) envolve terceiros? g) é algo prático, do dia-a-dia? h) é algo emocional? i) … e assim por diante. Seguindo o conceito, para cada pergunta, uma resposta sim ou não, que podem ou não remeter a outras perguntas. E assim, vai-se formatando este fluxograma, que talvez nos dê as respostas para a premissa preliminarmente apresentada. Por outro lado, pode-se abordar uma metodologia científica: formular a afirmativa que se quer vir a provar (ou não). A partir daí, construir uma série de perguntas, espécie de questionário, com perguntas abertas ou fechadas (abertas = porque tal coisa… e fazer digressões sobre…; fechadas = resposta sim ou não). A partir de todos os questionamentos formulados, montaremos uma planilha com os resultados e passaremos à análise dos dados coletados. Com esta análise, podemos inferir soluções que os dados indicaram e aplicá-las. Pronto, a incerteza está clarificada, quantificada e solucionada. Ou talvez, não fazermos nada disso e utilizarmos a velha técnica humana que é conviver com ela, independente de qual seja, levando a vida em frente e muitas vezes deixando com que a incerteza se esmaeça ou se desvaneça com nosso maior/menor/pior/sei lá/inimigo/amigo: o tempo. Pessoalmente, penso que o tempo resolve todas as incertezas. Paulo Rocha, Captação, Comercialização e Produção de Eventos

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Incertitude

Partindo da premissa de que a incerteza é a indecisão diante do que chamamos de verdade ou do que intitulamos certo (seguro), busco compreender o mundo d´outra forma, um mundo em movimento constante que não pode ser controlado por estatísticas de fatos passados. Sempre que estamos diante de algo novo, reviramos páginas de livros já escritos na esperança de respostas a nossas incertezas. Sei que a verdade é algo a ser encarado sem medo, mas o que é verdade se não um ponto de vista, tão incerto quanto real? A verdade de um nativo Tibetano não é a mesma verdade de um nativo no Qatar ou na Somália, ainda que analisadas no mesmo momento cronológico. As incertezas determinam a capacidade dos seres em discernir que na vida nada é seguro e o passo seguinte é sempre uma incógnita. Daí o fato de tantas pessoas buscarem através da fortuna, entre os astros, horóscopos, respostas mágicas para suas indecisões. Uma das bases do cristianismo é o livre arbítrio. Você é responsável pelo próximo passo, onde só é possível estar certo diante de uma verdade única e somente sua. Depois do primeiro passo, que deverá ser dado diante da incerteza, esse parece ser o sentido da vida. Para sermos senhores de nossos destinos é preciso termos a certeza de que nada é certo ou de conhecimento pleno de um único ser. Ser é saber que só somos a partir do outro, dos olhos daquele que é tão incerto quanto você. Dimythryus Padilha, colecionador e escritor

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“Em 20 minutos, tudo pode mudar”

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O ser humano tem como uma de suas mais marcantes características a busca pela certeza, pela segurança, pelo controle das situações, porém isso sempre foi e continuará sendo algo quase impossível de se conseguir, ainda mais em tempos como os que vivemos, em que somos bombardeados por informações novas o tempo todo. Como já diz o slogan da rádio: “em 20 minutos, tudo pode mudar”. Então como lidar com isso?

Por mais absurdo que possa parecer, o “controle” da nossa saúde mental está em aceitar que não temos controle! Mas Júlia, como assim? Explico: precisamos aceitar que a vida é como um barco no oceano. Podemos ter um pouco de controle sobre para que lado estamos indo e onde queremos chegar, mas precisamos aceitar que podem vir tempestades, a maré pode mudar e algum empecilho aparecer. Porém, isso não quer dizer que a viagem necessariamente será ruim.

Podemos encontrar novas paisagens no caminho, novas sensações e novas experiências, fazendo com que a viagem se torne mais interessante, fazendo com que o não controlado nos surpreenda e até aquilo que pode ser visto como ruim possa contribuir para a nossa vida de alguma forma.

Acredito que uma forma de se viver bem, sem dúvida alguma, é aprender a mudar de perspectiva, aprender a olhar cada situação por um outro viés… Sabe a história do copo meio cheio ou meio vazio? Acho que é por aí…

Então, se eu puder deixar uma dica, convido a pensar sobre todas as vezes que seus planos não deram certo e quantas vezes você foi surpreendido com o que veio depois. Será que, se tudo tivesse acontecido exatamente como você planejou, você chegaria onde chegou? Julia Lainetti, psicóloga

 

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A incerteza como nossa aliada

Parece que vivemos uma eterna transição, sem nunca chegar a um porto seguro. Tudo parece mudar o tempo todo…

Apesar de o tempo ser relativo, parece que é cada vez menor. As transformações acontecem de forma tão rápida; parece que temos urgência o tempo todo. Deparamos-nos com inteligência artificial, manipulação genética, neurociências, tecnologia que nos surpreende a cada dia, entre tantas outras situações, colocando-nos a cada dia frente a frente com o incerto, como que se tivesse que aprender sempre, para poder enfrentar e acompanhar a realidade, nos perguntando sempre se o que estamos fazendo é realmente o que queremos ou o que podemos, ou se estamos fazendo o que nos é imposto, porque temos medo de julgamentos, ou fazemos aquilo em que “acreditamos” ser o que podemos, nos causando muitas vezes frustrações.

Quantas vezes quisemos tomar um rumo diferente, mas ficamos com medo do julgamento? Criamos culpas em cima de culpas pelas nossas escolhas. Parece que estamos esquecendo-se de usar os nossos filtros nas informações, em relação aos nossos desejos.

Dificilmente teremos a certeza de que estamos SEMPRE fazendo o que é certo, pois como seres únicos temos o direito de pensar, sonhar e viver de forma única, sempre se respeitando e respeitando os outros, sempre usando o que chamamos de “bom senso”.

A incerteza é um dos fenômenos que determinam nosso comportamento e, consequentemente, nossas vidas – e vivemos permeados de incertezas. Devemos aprender a utilizá-la como nossa aliada, pois é através dela que nos damos o direito de avaliar a cada minuto o nosso futuro. Por conta de nossas incertezas que conseguimos acreditar na “outra possibilidade”, que buscamos a esperança para superarmos as situações difíceis de nossa vida. Não importa se você chama de esperança ou de fé, o importante é acreditar sempre em você, nos seus desejos, nos seus sonhos. Somos o que pensamos.  Marcia Rampani, psicóloga

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O excesso de proteção e liberdade forma pessoas inseguras

O ser humano vive numa época em que, se pudesse, estaria presente em todos os ambientes e contrariaria o duvidoso pelo incerto. Os aspectos da vida sofrem incertezas todo tempo, inclusive pelo fator virtual. Atualmente não precisamos estar presentes para obter satisfação. Nós nos tornamos multifuncionais e o dia não controla o tempo, e o tempo não suporta o dia. Por assim dizer nos tornamos escravos da incerteza, e as incertezas vêm atropelando os nossos dias.

A saúde física e mental “tolera” as incertezas, porém cada dia que passa se tem mais pessoas doentes. Isso retrata a dificuldade em viver um dia após o outro e se focar no presente. Não conseguimos mais trocar olhares, “jogar” conversas fora, tomar café com bolo em tranquilidade, escutar os passarinhos cantando. Buscamos a qualquer preço compensar aquilo que não finalizamos, justamente pela falta de prazos e pelo excesso de responsabilidades que adquirimos.

O excesso de proteção e liberdade normalmente forma pessoas inseguras, o que possibilita as incertezas prováveis de uma vida com imaturidade e desafios constantes de crescer mentalmente.

Fabiane Ogueto Gaspar – Psicóloga

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Certezas são ficção

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O nosso mundo muda na velocidade da luz. E certamente não foi assim para os nossos pais. A realidade se assemelha cada vez mais a um borrão. Pulamos de momento a momento, sem parar. Não sabemos onde vamos chegar. Não há certeza alguma, apesar de dizermos para nós mesmos que estamos certos de muita coisa. Onde estará o Porto Seguro no meio desta dança de caos da vida? Talvez na constância ou na certeza. Mas a certeza é ficção. É uma história que gostamos de contar para nós mesmos, para nos ajudar a nortear nossos caminhos, como um farol no meio da tempestade, que nos traz à segurança da terra firme. E nós somos muito bons em criar faróis. Sabemos muito bem criar teorias, ideologias, filosofias, ciências, ou qualquer outro artifício que possa nos ditar algumas certezas. Mas o Porto Seguro não está na certeza. Crescemos em um mundo que nos diz que todas as soluções estão fora. Mas o mundo é apenas nosso espelho. Se vivemos um mundo de incertezas é porque somos mais frágeis e falhos do que gostamos de dizer a nós mesmos. Nós nos decepcionamos com a nossa falibilidade, com a nossa incompletude, vista num espelho que nos mostra que não somos perfeitos e não podemos controlar tudo. Mas se pudermos suportar essa decepção com nós mesmos e olharmos mais a fundo no espelho, poderemos começar a nos aceitar e a nos conhecer. E então a incerteza não será mais um problema, pois poderemos encontrar o Porto Seguro em nós mesmos. Querer certeza demais é continuar alimentando a ilusão de que controlamos alguma coisa no mundo. Ter segurança é saber que, mesmo que não consigamos controlar o que nos acontece, podemos escolher como reagir e, principalmente, como agir. E é isso que nos faz quem somos, em essência: o nosso próprio Porto Seguro. Cybelle Olivier de Araújo, psicóloga

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