Você é o que se pensa?

Temos uma imagem própria na mente quando olhamos no espelho pela manhã. A ideia de quem somos já está instalada e rodando, como um sistema operacional, um software que levamos algum tempo para instalar.
As definições destes papéis existenciais essenciais, onde moro, em que trabalho, com quem me relaciono, o que consumo, qual o meu lazer, entre diversas outras coisas, são como pequenas peças do grande quebra-cabeça da identidade pessoal, ou ainda algoritmos do software que determinamos.
Algumas destas peças são pré-definidas, não dependem de nós, coisas como idade, local de nascimento, filiação, mas muitas outras são resultados de escolhas pessoais. Se essas escolhas foram determinadas pelas peças iniciais, ou não, é uma das questões filosóficas mais antigas.
O que me pergunto é: e se essa imagem que temos não diz respeito ao que realmente somos, e sim um reflexo do que fomos há anos atrás, como um delay entre o que nos constituiu no passado e que imaginamos ser hoje? Ou ainda, se você hoje, ao se olhar no espelho, tivesse a imagem exata de quem é no momento presente, o quanto veria que suas escolhas pessoais já não dizem respeito à sua identidade?
Saramago no seu livro “A Caverna” traz essa questão ao personagem principal, quando ele se pergunta sobre o que deve insistir na sua vida e o que deve deixar ir embora. Essa pergunta, imagino eu, deve estar presente na vida de muitos, e é resultado do delay na diferença da imagem que temos.
Estamos vivendo tempos de mudanças, lidar com estas questões de identidade faz parte da aceleração atual, onde tudo é um constante aqui-agora-ao-mesmo-tempo, e nada está no mesmo lugar por muito tempo, muito menos as certezas, muito menos nossa imagem.
Luz Maria Guimarães |  Empresária e filósofa clínica

É preciso esvaziar-se para permitir novos conteúdos em si mesmo

[fb_button]

A etimologia da palavra “negócio” é negar o ócio; assim, negociar é o mesmo que sem ócio, sem descanso. Isso em um mundo da nascente industrialização, tinha um sentido completamente diverso do que vivemos hoje. Negociar, trabalhar, era sinônimo de trabalho braçal, o oposto do pensamento, do filosofar.

Hoje, em tempos de constante transformação de tudo, de relacionamentos, de modos de trabalho, de cotidiano, adaptar-se é a palavra-chave e a criatividade uma qualidade perseguida por tantos. Sabemos que em um copo cheio não entra mais líquido, ou seja, é preciso esvaziar-se para permitir novos conteúdos em si mesmo, novas possibilidades de abordagem. A dificuldade é descobrir como fazer isso em um cotidiano com tantos estímulos externos; mais que isso, em uma conjuntura onde precisamos estar sempre produzindo, trabalhando, negociando, negando o ócio, como buscar justamente o ócio? É mais uma tarefa?

Quem realmente fica parado sem fazer nada? Nosso conceito de descanso, de ócio, está diretamente ligado a uma atividade; ou se está praticando uma atividade física, ou assistindo TV/cinema, ou ouvindo música, ou lendo, entre tantas infinitas possibilidades. Para alguns, fazer uma ou duas destas atividades listadas pode ser um exercício de não prestar atenção em nenhuma, e esvaziar a mente, para outros, realizar somente uma atividade já é motivo de extrema concentração e o oposto do ócio.

Agora, como cada pessoa vai chegar no seu ócio é uma viagem particular, singular, como se fala em Filosofia Clínica. Cada pessoa tem a sua maneira de olhar o mundo, e mais, de se olhar no mundo. O que para um pode ser uma experiência intensa, como ouvir música, por exemplo, para outro pode ser uma forma de se concentrar em uma atividade física.

Veja bem, se você faz sempre os mesmos trajetos, conversa com as mesmas pessoas, e faz os mesmos programas de lazer, pode estar reduzindo o seu mundo, seus pensamentos. Agora, você pode fazer exatamente essas mesmas coisas, e estar com uma série de pensamentos totalmente diversa do mundo exterior, visitando outras paisagens, ou simplesmente em um estado meditativo equivalente do ócio, e pronto para novas percepções sobre as mesmas coisas.

Lembro de um conhecido que viajou para a Europa e, sem nenhum conhecimento sobre a história dos países visitados, voltou dizendo que as cidades eram feias, pois só tinham prédios velhos. O simples ato de viajar para outro continente não garante que a pessoa tenha novas experiências.

O que o estudo da natureza humana, em especial pelo viés da filosofia clínica, nos traz é esse olhar sobre a singularidade, como cada pessoa representa suas experiências e chega no seu estado de ócio, o que impossibilita uma fórmula, um caminho mágico, já que a própria descoberta deste caminho já é o caminho em si. Luz Maria Guimarães, filósofa clínica.

Ócio sem culpa. Leia aqui