Sim, eu decidi lutar por esta causa

Cresci completamente alheio a tudo o que crianças do sexo masculino gostavam de fazer: nunca gostei de futebol, nunca brinquei de carrinhos, nunca gostei de azul. Figuras masculinas nunca me inspiraram, seja na arte, no entretenimento ou na vida real. Admiração, coragem e exemplos a serem seguidos sempre encontrei em mulheres. As mulheres sempre foram meu esteio de segurança.

Eu tinha 14 anos a primeira vez que, lucidamente, senti meus olhos desviarem-se, atraídos e atentos, para alguém do mesmo sexo. Na época, lembro de ter ficado consternado. O que estava acontecendo comigo? Como era possível que eu estivesse sentindo atração por alguém do mesmo sexo? Como explicaria isso aos meus pais e amigos? Não, deveria ser apenas uma impressão.

A vida seguiu e eu fui percebendo que isso era constante. Aquilo que era afeto ao masculino não me fazia feliz (tarefas, lazer, esportes) e, no campo da sexualidade – que se aflorava –, meninas não despertavam em mim quaisquer paixões, amor ou atração. Definitivamente, teria que encarar a realidade, por mais dura que se apresentasse.

Lembro que o primeiro sentimento que tomou conta de mim foi a culpa. Culpa por não seguir o modelo traçado pela sociedade como “normal”. Parecia que eu estava diante de um abismo, uma distância absurda da sociedade e das pessoas, que parecia ficar cada vez maior. Não raro me sentia aberração e tinha certeza de que, ao gritar para o mundo o que eu sentia, seria motivo de vergonha, tanto na família quanto para amigos.

Uma criança homossexual não possui círculo social homossexual. Ela nasce, sozinha, em uma sociedade heterossexual, vê na televisão, nos filmes e nas ruas casais heterossexuais, tem como colegas de escola adolescentes (se não todos, a maioria) com mesmo comportamento – heteronormativo –, que destoa, e muito, da sua singularidade. Nas festas de família, ela se sente um peixe fora d’água – porque, afinal, ela está crescendo e não tem “namoradinhos/namoradinhas”.

Isto mesmo: não há referências. É neste contexto que se introjeta a culpa de ser. A sociedade empurra aos LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais) a vergonha de si, e é um trabalho demasiado difícil desconstruir este sentimento. Cresce-se acreditando estar no caminho errado, pois, afinal, não se está seguindo o modelo traçado como ideal. Gays são considerados imorais, promíscuos, e a religião – por evidente – contribui, e muito, com a oxigenação de tal pensamento.

Chega o período escolar. Em um ambiente em que não se discute – por moralidade exacerbada e hipócrita – a diversidade sexual e de gênero, o preconceito, o ódio e a estigmatização encontram habitat ideal. Vivi onze anos de escola – ensino fundamental e médio – de intenso, cruel e perverso bullying homofóbico. Não houve um dia sequer em que não entrei no colégio sem ouvir frases como “Viado!”; “Bicha!”; “Boiola!”; “Tem que morrer!” e “Aberração!”.

Duas comunidades (grupos coletivos) na rede social Orkut foram criadas especialmente para tratar da minha homossexualidade: “Mateus gay” e “Você já chamou o Mateus de gay hoje?”, ambas com 800/900 integrantes. No ano da formatura (2009), era cercado no recreio e questionado: “Está preparado pra te chamarmos de bicha quando chamarem teu nome na colação de grau, na frente da tua família e amigos?”.

Percebi que algo em mim despertava um ódio absolutamente irreal e perverso. O que havia de errado em mim? Concluo o colégio em 2009. Ao menos por ora, o pesadelo havia terminado. Entro na faculdade de Direito, em 2010. Uma mudança de ciclo, em que a sociedade já havia mudado um pouco. Como seriam os cinco anos de faculdade que me aguardavam? Seriam como foram os anos de colégio?

A escolha do Direito, apesar de certa para mim desde os doze anos de idade, me fez refletir sobre como seria minha vida neste caminho profissional. Um ambiente formal, cético, conservador, cheio de regras, togas e protocolos, aceitaria um homossexual? Eu poderia crescer profissionalmente na condição de LGBT em um grande escritório ou mesmo no serviço público? Como seria dali para a frente?

Mas a vida é feita de desafios e requer coragem. Como li uma vez, de um autor desconhecido: “Vai. E se der medo, vai com medo mesmo”. Passei no vestibular da Faculdade de Direito da Fundação Escola Superior do Ministério Público do Estado do RS e fiz minha matrícula. Cinco anos de Direito estavam por vir, e um alento para a alma era saber que, dificilmente, alguma etapa poderia ser pior do que os onze anos escolares.

Durante a graduação em Direito, me tornei ativista LGBTQI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transsexuais, Queer, Interssexuais +). Percebi que havia chegado a hora de lutar por respeito, dignidade e cidadania. Comecei a luta absolutamente sozinho, indo em Paradas LGBTs e participando de oficinas, palestras e workshops em matéria LGBTQI+.

Conviver com o movimento LGBTQI+ me fez perceber que eu não estava sozinho: várias outras pessoas viviam situações similares ou até piores. Eu, ao menos, tinha inteiro e pleno apoio da minha mãe, uma mulher que sempre esteve ao meu lado – ainda que isso significasse estar contra tudo e contra todos – e que era meu maior exemplo de coragem e de força. Ela foi a primeira pessoa a me olhar no fundo dos olhos e dizer: “tu és meu orgulho e nada vai mudar isso!”.

Conheci uma ONG (Organização Não Governamental) LGBTQI+ que lutava pela dignidade dessa comunidade tão vilipendiada e marginalizada socialmente (“Outra Visão LGBT”, aqui do Rio Grande do Sul). Passei a frequentar as reuniões da ONG e a participar dos atos realizados. Depois de muito amadurecimento e vivência na causa LGBTQI+, finalmente, fiz a transição da vergonha pro orgulho. Entendi, de uma vez por todas, que o errado não era eu; a sociedade, de fato, estava doente.

A militância na causa LGBTQI+ me trouxe uma lucidez e clareza indescritíveis, mas também uma grande tristeza: MUITAS pessoas eram alvo desse ódio gratuito. A sociedade tinha dificuldade para lidar com a diversidade. Perdi vários amigos para a homofobia: amigos gays e amigas travestis foram assassinados em crimes barbaramente homofóbicos. Cada morte dessas me matava um pouco. Pensava que poderia ser eu, e isso tirava uma parte de mim.

Há quem diga que tudo tem um lado bom. Se, de um lado, este cenário me trazia grande tristeza, de outro, fez reforçar minha certeza do quanto era importante lutar por esta causa. O Brasil mata 1 LGBTQI+ a cada 19 horas: um verdadeiro genocídio. Sim, o amor era capaz de causar tanto ódio. Segui firme na luta, curando minhas feridas à medida que ajudava mais pessoas a se empoderarem e a terem certeza de que não deveriam envergonhar-se de si mesmas.

Em 2017, entro em um grande escritório de advocacia. Mal sabia que, ali, encontraria um ambiente inacreditavelmente respeitador e inclusivo. Nunca, em toda a minha vida, trabalhei em uma organização que eu admirasse tanto e na qual me sentisse tão pertencente. Ali, enxerguei mulheres em posições altas – mais que homens, diga-se de passagem –, sócios LGBTs, pessoas negras, deficientes, dentre outras. Percebi que o Direito permitia, sim, a ascensão de pessoas LGBTs.

Tive muitos reconhecimentos profissionais, o que confirmou o que eu pensava: minha sexualidade, jamais, serviria de fator de discriminação negativa. Em 2019, o escritório decidiu criar uma Comissão da Diversidade, da qual passei a ser integrante. Realizamos muitas ações em prol da diversidade, e muitas outras ainda estão por vir.

Hoje, sou plenamente feliz e realizado. A vergonha, definitivamente, deu lugar ao orgulho, e tenho total respeito, não apenas do escritório em que trabalho, mas de todo o meu círculo social. Ajudei muitas pessoas a entenderem que são perfeitas na sua própria natureza e singularidade. Acredito que a mudança cultural completa e definitiva é um processo intergeracional, que talvez demande mais tempo do que minha própria existência.

Sim, eu decidi lutar por essa causa. Uma causa de cidadania, de respeito, de dignidade e de amor. E, sem titubear, afirmo: é a causa da minha vida. “A cada beijo uma revolução”!

  • Mateus Gasparotto Crescente é Advogado

Feliz 1976!

31 de dezembro de 1975, minha resolução para o próximo ano é ser feliz: brincar, comer e fazer amigos.

A felicidade é simples quando se tem seis anos de idade. É a idade do meu filho hoje. A criança ensina-nos a verdadeira resiliência, aquela que não carrega mágoa, que supera limites e nos faz enxergar o lado da bom da vida apesar, dos percalços. Por isso, com certa frequência, visito o passado e o observo a menina de “maria-chiquinha”, cheia de perguntas e uma certeza: a felicidade está nas pequenas coisas do dia a dia.

Não me prendo àquele tempo porque já não pertenço mais a ele, apenas aprecio por alguns minutos a sensação de voar alto no balanço de corda e tábua que meu pai fez especialmente para mim, no sabor da bergamota azedinha que meu avô oferecia-me ou no doce que minha avó fazia para os netos – sempre reservando o meu pedaço –, na cumplicidade da nova amizade e na mão da minha mãe protegendo-me de todo mal.

A viagem no tempo, às vezes, remete-me ao futuro. Penso no meu filho e nos desafios que ele terá pela frente. Não me prendo a esse tempo porque ainda não me pertence, apenas reflito como posso no momento presente deixar “pistas” de modo que, daqui a alguns anos, ele possa segui-las como João e Maria de volta a seu lar, seu estado de felicidade quando, por um descuido, perder-se por aí. Não sei muito desta vida apesar de ter cumprido uma boa parte dessa caminha. Mas uma coisa aprendi: viver o presente não é simples quando se tem um passado mal resolvido e um futuro tomado pela dúvida. A menina que fui, não perdia tempo pensando nas bonecas quebradas nem se perguntando como seria o seu corpo aos 49 anos. Ela deitava sobre o peito do pai e dormia o sono dos anjos, sentia o olhar atento da mãe a qualquer distância e seguia segura em suas aventuras na copa das árvores. A felicidade está em viver no presente as pequenas coisas do dia a dia. Pode ser receber um cafuné de quem se ama, tomar um banho de mangueira com a galera da quadra, colher macela na beira da estrada no passeio de Páscoa com a família… Incrível como certas coisas marcam a vida da gente.

Nenhuma delas, encontra-se no banco. Só se for no banco da praça. As grandes conquistas são importantes, com certeza, porém o que fica mesmo são as pequenas coisas do dia a dia. Ainda hoje, lembro do cheiro da minha mãe morta há mais de 30 anos enquanto me esforço-me em para lembrar a placa do meu carro. A minha “melhor amiga no verão de 1975”, com todo o respeito e carinho aos meus milhares de amigos virtuais, preenche meu coração com uma ternura de um modo que nenhuma tecnologia poderá suprir. Vivi na era do toque, do olho-no-olho, dos diários manuscritos. Não é saudosismo. É a lição que, de tempos em tempos, precisamos resgatar.

31 de dezembro de 2018, minha resolução para o próximo ano é ser feliz: brincar, comer e fazer amigos.

Andrea Guerreiro de Souza é Coach