Você sabe o que é uma profecia autorrealizável?

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Todos nós, em determinadas circunstâncias, tendemos ao pessimismo. É o que o psicólogo Arthur Freeman chama de “catastrofismo”. “Catastrofizar” é acreditar no pior, no desastre, no perigo iminente, mesmo na ausência de evidências que apontem para esse desfecho.
Essa tendência a pensar no pior pode acabar fazendo com que o pior – ou algo tão ruim quanto – de fato aconteça. Trata-se da profecia autorrealizável, que é uma “previsão” sobre o futuro que influencia o comportamento da pessoa de tal forma que acaba se cumprindo.
Seguindo essa lógica: profecias catastróficas conduzem a resultados catastróficos.
O processo que leva ao “catastrofismo” e à profecia autorrealizável é desencadeado na medida em que a pessoa vai conversando consigo mesma e se convencendo do pior. Por exemplo, se eu acredito que posso ser aprovada em um concurso público, provavelmente escolherei um material de apoio adequado, farei um bom planejamento de estudo e a ele me dedicarei com disciplina e empenho, realizarei a prova com atenção e terei boas chances de alcançar o meu objetivo. Mas se, desde o início eu achar que não sou capaz, talvez nem chegue a inscrever-me no concurso; e se o fizer encontrarei, inconscientemente, outras maneiras de me autossabotar: não estudarei adequadamente, me distrairei com outras coisas ou desistirei ao menor sinal de cansaço. Afinal, se estou convencida de que “morrerei na praia”, posso considerar a possibilidade de parar de nadar como a menos frustrante.
Pense em um estudante, que aleatoriamente chamaremos de Douglas. Estudante dedicado, Douglas confia em sua habilidade intelectual e costuma se sair muito bem nas provas. Mas a simples ideia de apresentar um seminário o transforma em um “pudim ambulante”. Embora domine o conteúdo, ele tem certeza de que vai dar tudo errado e uma sucessão de cenas apavorantes lhe passa pela cabeça: “Vou ficar nervoso, com isso começarei a gaguejar, então vou me confundir todo, os colegas vão rir de mim e meu professor vai ficar furioso”.
Em pouquíssimo tempo Douglas não só escreveu o roteiro de seu fracasso como se convenceu que não podia fazer nada para evitá-lo. Então, a profecia se realizou: na hora do seminário, a língua de Douglas parecia estar “colada” ao céu da boca, suas mãos ficaram suadas, seus joelhos bambos e sua voz trêmula. O que Douglas não percebeu é que foi ele mesmo o responsável pelo desastre, ao deixar-se dominar pelo “catastrofismo” e colaborar para a concretização da profecia de fracasso.
E quantas vezes não vemos pessoas chegando à conclusão precipitada de que o “mundo vai desabar” e, dessa forma, criam problemas que de outro modo não existiriam?
Isso significa que o caminho é partir cegamente para o pensamento positivo? Não mesmo… Por óbvio que possa parecer, o mais saudável é simplesmente ser realista, e ser realista não significa acreditar alienadamente que nada de errado pode acontecer. Quem cultiva o pensamento realista não nega que o pior é uma possibilidade e sofre decepções como qualquer outra pessoa, mas não supervaloriza o perigo nem a decepção, não se deixa escravizar pelo medo e procura alternativas para melhorar as situações adversas. Pense nisso!

Ana Lúcia Pereira, psicóloga

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Por que é difícil encontrar defeito em si mesmo?

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Algumas pessoas acham que defeito é uma característica que só existe no outro, mas nunca o encontra em si mesmas.
Por que é difícil encontrar defeito em si mesmo? Talvez porque não tenha procurado ou nem mesmo olhado para dentro si. Muitos ignoram essa possibilidade, mesmo quando são apontados por alguém.
A questão é que o defeito é uma imperfeição física ou moral, é uma característica deformada, uma incorreção ou falha de algo ou alguém em relação aos requisitos estabelecidos socialmente. No caso de pessoas, ser reconhecido como alguém possuidor de defeitos é ser reconhecido como alguém sem valor, alguém indesejado, e isso gera sofrimento, principalmente dentro de uma sociedade tendenciosa em desprezar o que é diferente. Aquele que se distancia de um ideal muitas vezes é oprimido. Um exemplo é uma estética que só valoriza a forma e a aparência magra, escultural e jovem, segregando os que diferem.
Entretanto, negá-los não ajuda a melhorar-se. Sigmund Freud salientou que a negação pode ser uma defesa psíquica que tem a finalidade de atenuar a ansiedade. Desse modo, o sofrimento é afastado negando aquilo que é considerado a fonte de ameaça e que causa seu sofrimento. Afastado, mas não resolvido.
Negar defeitos próprios é negar, também, parte de si mesmo. É cindir-se, é ser metade, e, algumas vezes, quando se radicaliza, é negar ser humano. O ser humano quando não consegue lidar com os próprios defeitos, segundo M. Klein, acaba por projetá-los no outro para tentar lidar com os mesmos fora dele. Desse modo, o defeito estaria sempre no outro, assim como sinalizou J.P. Sartre: “o inferno é o outro”. Mas, como afirmou C.G. Jung: “ao falarmos dos outros, revelamos muito sobre nós mesmos”. Jung ainda salienta: “quem olha para fora, sonha, quem olha para dentro, desperta”.
Por isso, não adianta continuar olhando para fora de si, olhando o outro, olhando somente o mundo do lado de fora. É preciso ter coragem de olhar para dentro de si mesmo e enfrentar as “feras”. Tirá-las do escuro, das “sombras” do inconsciente, e, logo você entenderá que elas não parecerão tão feias como imaginava. Você verá que também não é a única que as possuem e que as mesmas ou outras se encontram nas pessoas em todo lugar. Veja só o que disse Jung sobre ele mesmo: “prefiro ser inteiro do que ser somente bom”.
Isto nos faz pensar que para uma pessoa ser considerada íntegra ela precisa ser inteira, precisa se aceitar como é. Se reconhecer com suas qualidades positivas e “defeitos” também, e mesmo assim, se amar. Desse modo, aquele medo de não ser admirado, ou de ser rejeitado por apresentar características imperfeitas, não terá mais tanta força e sofrimento, pois você já não terá a necessidade de ser perfeito(a) e de ser admirado(a), pois se aceita e se gosta como é. Isso lhe dá a liberdade de ser você mesmo(a), de crescer, progredir, também de amar a outra pessoa de forma autêntica e completa.
Olhar para dentro possibilita o autoconhecimento, o autoconhecimento possibilita o fortalecimento e a integração do seu ego, o ego fortalecido possibilita a resolução dos conflitos existenciais, superação das situações adversas e do crescimento para lidar com a vida com mais maturidade e para viver com mais qualidade.
Devemos deixar de negar os defeitos e olhar para eles com outros olhos. Se mudarmos a forma como percebemos as coisas, as coisas mudam. Essa mudança acontece, também, olhando para os defeitos de uma forma diferente.

Valberto Gama, psicólogo

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Ter um defeito não é necessariamente problema

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“Defeitos”? Falar de “defeitos” pode ser um tema até batido quando focamos nos padrões sociais. Mas, hoje, quero conversar um pouco sobre o lado positivo dos “defeitos”.
Primeiramente, vamos conceituar “defeito”. “Defeito” é tudo aquilo que não está em conformidade com um padrão físico ou que apresenta alguma irregularidade de funcionamento. Pessoalmente, não concordo com essa classificação quando falamos de seres humanos. Prefiro chamar de características individuais, mas para esse texto consideraremos “defeito” qualquer característica física ou mental fora do padrão social dito “normal”.
Antes, queria contar que quando vivíamos na pré-história nos agrupávamos em clãs e somente aquelas pessoas do clã eram nossa comunidade. Ser aceito era uma questão de sobrevivência, viver em grupos garantia uma vida mais segura e maior possibilidade de aquisição de alimentos. Assim, ter deficiências físicas ou mentais poderia fazer com que fôssemos excluídos e a nossa vida corria riscos.
Nós evoluímos e hoje os grupos são diversos e ser rejeitado por um grupo não nos oferece risco de vida e também não nos impede de sermos aceitos por outro. Temos uma diversidade de grupos. Mas parece que nosso cérebro nem sempre age de acordo com essa premissa e, ao sermos rejeitados por um grupo, é comum continuarmos tentando fazer parte dele. Ter um “defeito”, seja ele físico ou mental, pode nos atrapalhar nessa aceitação. Mas será que pode nos ajudar de alguma forma?
Vamos pensar em um adolescente fora do padrão, com o “defeito” de ser muito gordo (obeso). Ele pode ser excluído e sofrer bullying por parte dos colegas. Na tentativa de fazer parte do grupo, ele pode desenvolver uma boa habilidade de escuta, o que lhe garante ser o amigo procurado quando alguém tem algum problema, mais atento ao outro e ao ambiente. Ele pode desenvolver uma habilidade de comunicação e assertividade, melhorando seu diálogo e entendimento no grupo. Ele pode desenvolver um senso de humor específico, que promoverá boas risadas e poderá aproximá-lo das pessoas. Ele pode desenvolver uma capacidade de observação e empatia, que aumentará sua percepção do outro e o tornará mais próximo de pessoas que passam por alguma dificuldade. Ele pode desenvolver uma capacidade maior de lidar com frustrações, que será de grande importância durante toda sua vida.
São inúmeras as habilidades que podem ser desenvolvidas como estratégias de aceitação. Uma pessoa com ansiedade aumentada, que enxerga catástrofes nas situações futuras, pode desenvolver habilidade de antever possibilidades ruins e ser capaz de criar estratégias para minimizar ou evitar problemas. Uma pessoa com humor deprimido pode desenvolver maior capacidade de enfrentamento e autopercepção. Uma pessoa com uma deficiência física pode desenvolver novas habilidades de locomoção, percepção de espaço, empatia e sentidos mais apurados. Uma pessoa dita tímida pode desenvolver uma capacidade mais analítica de situações e do outro etc.
Diante dos exemplos, é possível perceber que ter um “defeito” pode ser a chave para desenvolver habilidades e enfrentamentos que, muitas vezes, não desenvolveríamos se estivéssemos dentro de um padrão de normalidade social.
É importante lembrarmos que existem diversos grupos e que ser rejeitado por um não significa fracasso e que sempre teremos outros grupos aos quais podemos pertencer.
Mas, mais do que isso, vale estarmos atentos e nos perguntarmos ‘em que esse “defeito” me ajudou?’ ‘Que habilidades desenvolvi por causa dele?’ Renata Trigueirinho Alarcon, psicóloga

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