Reagrupando os caquinhos da alma


Houve uma época em que, para os computadores funcionarem bem, de tempos em tempos era necessário rodar um comando chamado “defrag”. O processo era rápido e até divertido. Em instantes, a tela do computador se transformava num grande muro esburacado e tijolinhos iam caindo até preencher todas as falhas da estrutura. O procedimento tinha por objetivo reagrupar dados que haviam sido manipulados (deletados, regravados etc). Um fotógrafo experiente, outro dia, me disse que algo parecido acontece com os cartões de memória, e por isso devemos formatá-los a cada sessão, e não simplesmente apagar as imagens.
Quantas vezes, ao longo da vida, precisamos rodar um defrag em nossas almas? Passar a limpo emoções e sensações? Reorganizar sentimentos, ajustá-los, para que possamos continuar firmes e fortes na jornada? Quantas vezes o tijolinho lá de baixo do nosso sistema de crenças arrebentou, colocando em risco certezas e construções de uma vida toda?
Cada dor sentida deixa sua marca, às vezes como aprendizado, outras como um grande vazio cheio de frustrações. Cada dor não tratada influencia os atos no futuro, sob formas diversas – medo, desesperança, autoproteção. Cada dor alimentada em excesso rouba energia, vontade de viver. Cada dor negligenciada aumenta a distância entre quem somos e quem poderíamos ser, e quem, em essência, somos de fato.
Não raras vezes estamos fragmentados, estilhaçados e com os níveis de energia insuficientes. Falta motivação e um sentido, sobram dúvidas e imprecisões. Porque, fragmentados, estamos vulneráveis e é preciso buscar, recuperar, cada caquinho da alma que voou para longe, como um grande big bang, a cada acontecimento triste da nossa vida. É necessária muita força centrípeta para reverter esse movimento, inverter esse campo de força, e muitas vezes algo de fora, como apoio, incentivo, ou simplesmente um colo no final do dia, é tudo de que necessitamos.
Na maioria das vezes, porém, é preciso muito mais. Precisamos mover mundos internos para voltarmos à felicidade e ao brilho. A tarefa pode parecer tão impossível que seu sucesso assume ares de milagre – nome que damos para tudo que subverte, que suplanta, como bênção, a ordem natural do caos.
Por esta perspectiva, às vezes, fico pensando o quanto estamos dispostos, no cotidiano, a operarmos pequenos milagres em nossa vida. Sonhar com o absurdo, fazer o que é possível, e na balança dos fatos termos os pratos da realização equilibrados no nosso micromundo, mas que, para cada um de nós, é o próprio universo.

É assim para mim. E para você?

Sandra Veroneze
Jornalista, escritora, editora e filósofa clínica

A vivência instantânea e o desafio da não fragmentação

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Na hipermodernidade ou pós-modernidade, as Novas Tecnologias da Informação (NTIs) operam no núcleo da subjetividade humana, no seio das nossas memórias, inteligência, sensibilidade e afetos, em que estão imersos novos tipos de relações e modos de existir. A cibercultura, hoje desenvolvida em rede, envolve usuários numa conexão generalizada, conectada em tempo integral, modificando a subjetividade. Estudos mostram que muitas pessoas buscam as NTIs tanto para se comunicar, como, paradoxalmente, para se isolar. Parece que o isolamento promovido é devido ao desgaste das relações interpessoais, que então substituem por contatos mediados por uma “proximidade” tecnológica. Talvez, por isso, alguns estudiosos acreditam que o uso excessivo das NTIs possa fragmentar a identidade do indivíduo.
Os diversos modos de utilização das NTIs são diferentes para cada pessoa – assim como ninguém é igual a ninguém. Diferentes pessoas estabelecem diferentes formas de se relacionar com o computador, dando diversos significados e sentidos a esse objeto. Pode ser um instrumento de trabalho, um utilitário; pode ser um instrumento de lazer e pode ser um instrumento de perversão e patologias – ou as três coisas alternadamente para a mesma pessoa, podendo gerar ideias fragmentadas de si e do outro (que pode ser real ou não), estimulando ações, que poderiam ter sido previsíveis, ‘se’ essa pessoa estivesse no convívio social e familiar e ‘se’ essa se sentisse segura para externar suas angústias e anseios.
Usando o termo hipermodernidade, podemos dizer que a sociedade contemporânea vive uma situação paradoxal, “[…] dividida de modo quase esquizofrênico entre a cultura do excesso e a moderação”, em que a pessoa encontra-se, de um lado, entre a exigência de ser, fazer e consumir de forma demasiada, e, de outro, a necessidade de lidar com o equilíbrio e de ser comedido. Podemos partir do princípio de que o conceito de identidade na pós-modernidade está fazendo uma comparação entre as chamadas ‘velhas identidades’ – que estão em declínio, e as ‘novas identidades’ – que estão surgindo e deixando o sujeito fragmentado. Mas toda mudança gera inquietude, medo, fracassos. Alguns sairão mais fortes e outros nem tanto. Os mais frágeis podem se desestruturar. Os mais estruturados podem crescer.
Existem duas hipóteses: a pessoa se identifica como ser humano e utiliza o computador como ferramenta distinguindo-o de si como algo estranho, oposto (uma máquina). E outra, em que a pessoa se relaciona com o computador como um igual, ou quase, estabelecendo-se num nível de confidente, companhia e amizade ‘real’.
Outra possibilidade é considerar a tecnologia como anonimato e a construção de uma nova Identidade. Aqui o anonimato é visto como estado libertador do sujeito, em que os indivíduos deixam de estar sujeitos à pressão da representação física, que por vezes não coincide com a sua auto-representação. Essa cultura da simulação oferece a possibilidade de “Identidades múltiplas”, ou apenas fantasias, fornecendo oportunidades de autoexpressão.
Mas existe outro aspecto da conversa eletrônica: o subjetivo. O aspecto subjetivo da tecnologia não está no que a informática faz por nós, mas no que ela faz conosco. Ou seja, a satisfação na comunicação quase instantânea. Isso pode ser um ‘cimento’ que dá às pessoas o sentimento de “pertencimento”, uma sensação de que, num grupo ou comunidade on-line, se escreve e imediatamente alguém pode retomar essa própria ideia, desenvolvê-la e remeter-me alguma coisa. Tais gratificações são estimulantes e produzem um sentimento de filiação, de pertencimento ao grupo, de reconhecimento.
Ao trafegar por essas duas esferas, instâncias online e offline, no ciberespaço, e processar seu ser, estar e agir, que o sujeito inteiro se fragmenta. A existência supõe uma performance no tempo e no espaço como construção da realidade de si e das coisas. Se conectar não é um problema, o problema é a hiperconectividade como condição de conexão contínua e generalizada na qual a pessoa está imersa através de seus dispositivos móveis de acesso à internet.
Vários hábitos da vida cotidiana são afetados pela forma como nos relacionamos com/pelas máquinas. Um deles é o hábito de escrever, mais especificamente das escritas de si, ou seja, da escrita como prática autorreferente. Escritas de si, ou falar de si, registros do cotidiano é uma prática saudável como forma de manter os pensamentos sempre à disposição como conversações consigo mesmo ou com os outros, autoconhecimento. O problema está nas escritas compartilhadas de forma instantânea, permeadas pelo imediatismo e pela urgência, compartilhadas e re-partilhadas.
Podemos imaginar que somos outra pessoa que ‘não a real’ e a sim a idealizada, aquela que gostaríamos de ser, ou aquela que almejamos ser, ou aquela que invejamos ser. Quando “nos mostramos” nas redes estamos ao mesmo tempo inventando quem somos enquanto sujeitos, tanto na vida online como na vida offline, com a diferença de que a internet é uma tecnologia que permite formas de expressão não antes imaginadas.
Na hipermodernidade, a vivência instantânea é do que está acontecendo no momento, regida por um imediatismo que paira sobre várias esferas da vida, em que, na lógica dos hiperconectados, esperar é perder tempo. Os relatos instantâneos são feitos para serem lidos em tempo real, como a novidade da informação; porém, ao mesmo tempo, esses fragmentos de vida, expostos em breves escritas, imagens, vídeos, registrados em formato de linha do tempo, formam uma espécie de diário, uma história pessoal. Porém, mesmo que estejamos diante de escritas instantâneas ou fotografias compartilhadas em tempo real em um feed de notícias, que se multiplica em diferentes telas, uma vida, ainda existe entre o acontecimento e o seu relato um certo tempo de elaboração do que foi vivido, por menor que seja. E é esse pequeno ‘espaço real’ que precisa ser preservado. É esse pequeno e mínimo tempo que precisamos captar, olhar.
Desconectar? Acredito que não. A rede é flexível, “conectável” e “desconectável”, tem várias entradas, múltiplas saídas. No universo das redes e da hiperconectividade é preciso aprender a conectar e desconectar, ir e vir.

Maura Castello Bernauer, psicóloga

Online, imaginária, percebida, suposta… De quantas realidades se faz o Eu? Lei mais aqui.

 

Uma linguagem que nunca pensei que se tornaria minha

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Há 20 anos atrás comprei meu primeiro computador. Pensei na época: “estou comprando para meu filho usar”. Ele estava com cinco anos de idade.
Eu não via necessidade do mesmo, pois já tinha vivido 40 anos sem ele.
Logo em seguida fui fazer um curso de reciclagem em Psicologia e lá me disseram que os comentários das leituras deveriam ser entregues via email?! Começou aí meu contato com a informática, aprendendo na “marra”, tentando-errando, brigando, enfim, sendo alfabetizada numa linguagem que nunca pensei que seria minha.
Sites, Blogs, Face, MSN, Chats e tudo mais foram sendo agregados de uma forma natural.
Com tanta facilidade que a tecnologia nos oferece, tornamo-nos mais e mais atraídos e até dependentes dela.
As vantagens da internet são indiscutíveis. Ela encurta distâncias, o que é muito positivo no sentido do conhecimento. Mas percebo que as relações interpessoais estão caminhando nesta mesma corrente, só que inversa. Não preciso estar ao lado da pessoa para dizer que amo – anexo uma figurinha e pronto. Sabe aquela coisa gostosa de tomar um cafezinho com um amigo? Ficou ocasional…
Os jovens parecem estar sendo mais afetados por esta dependência. Os games cada vez mais exploram a realidade virtual de uma forma impressionante, pois fazem o jogador interagir como se estivesse dentro desta realidade. Isto é fascinante. “Sou guerreiro, sou herói, enfrento obstáculos e tudo mais”. Os apreciadores disputam jogos online com equipes muito distantes, geograficamente falando.
Dependência virtual é um assunto polêmico e delicado. Dependência da vida real, qualidade de vida, sabores, cores, aromas, natureza, esta nunca irá desaparecer.
E pensar que há 20 anos atrás nunca iria necessitar desta Tecnologia.

Lydia Janaudis , psicóloga

Online, imaginária, percebida, suposta… De quantas realidades se faz o Eu? Lei mais aqui.