Sobre o tempo e momentos

Me diga: você tem pressa? Me diga mais: você acha que o tempo passa rápido demais? Tirando as relatividades que o assunto envolve, me deixe responder a você: eu não, não mais. Desde que me tornei pai, meu aprendizado começou na minha relação tempo / proveito. Sempre quis ser pai – e de duas crianças, como sou agora. Mas também sempre trabalhei muito – como funcionário de empresa e, ao mesmo tempo, com a minha própria. Noites eram seguidamente utilizadas para fechar alguma revista, finais de semana eram usados, muitas vezes, para criar uma nova marca para um cliente. Eu gostava, claro, mas era para mim como uma espera para uma ocupação bem mais satisfatória. E chamar de “ocupação” seria injusto, já que muitas vezes sou mais aluno do que professor. Mas do tempo – quanto a este tive que me reeducar sozinho.

Quando meu primeiro filho nasceu, comecei a reavaliar os clientes que aceitaria dali para frente. Nada de prazos apertados, nada de projetos que não valeriam o tempo utilizado. Se perdi algum dinheiro? Provavelmente, mas ganhei o tempo de estar presente e ver meu filho se desenvolver, e não perdi vários dos seus “primeiros”: sorrisos, choros, palavras, ações. Quando ele começou a ir para a escola, me identifiquei com a rotina que eu tanto precisava. Meus horários de trabalho seriam definidos pelos momentos que não estivéssemos juntos. Trabalhando em projetos pontuais, poderia adaptar todos os ganhos à realidade que me convinha, e que eu buscava sem saber: ter tempo. Veja que é diferente de “ganhar” tempo: é “ter” mesmo, possuir, não se desfazer e não desperdiçar.

Ao término de um dia de trabalho, no momento em que o buscava na escola, uma chave virava. Começava mais um momento com ele. Mesmo que fossem vários: levar para casa cantando uma canção infantil ou já apresentando algum rock; persegui-lo pela casa para, enfim, adentrar ao banho; brincar com a imaginação ou com um palito, fingindo ser um personagem; dormir abraçado, sentindo sua respiração constante e sua mão a segurar meu peito. Momentos de colecionar, de arquivar na memória sem a preocupação de ter espaço – sempre tem. Quando meu segundo filho nasceu, exponenciei toda essa relação, com mais oportunidades para me dedicar a eles. Eu tinha, então, a possibilidade (o tempo!) de fazer tudo de novo, com o bônus de continuar acompanhando o que veio primeiro. Mais ajustes: brincar com dois de diferentes idades, a tarefa difícil mais prazerosa que já cumpri. E continuo.

Expandi essa concepção para o restante das minhas relações de amigos e família, e vi minha vida ganhar mais sentidos. O tempo não era, enfim, um inimigo, mas algo que deve ser aproveitado mesmo quando for para fazer nada. Aprendi (e repasso essa ideia sempre) que a vida é feita de momentos, e que esses, veja só, estão amarrados ao tempo de uma forma eterna. Lamentar o passar do tempo é ter a ideia errada de que não se aproveitou. Já a saudade do minuto que passou é saudável, por garantir a importância que aquele momento significou. Então, numa coleção de momentos eternos, a satisfação é ver que há uma vida cheia de significados, e que o tempo, de vilão, passa a ser um companheiro; que a pressa só apressa o que deve ser curtido no tempo certo; e que o tempo, esse senhor, é um menino lhe esperando para brincar. Sem pressa.

  • Luciano Seade é Jornalista e Designer Gráfico

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