Silêncio, quase um artigo de luxo

Vivemos num mundo de muitos estímulos, com excesso de informações e onde o silêncio é quase um artigo de luxo. E ele é verdadeiramente valioso. Isso porque o silêncio externo é quem pode alcançar a escuta dos barulhos internos. Quando a pessoa consegue ouvir o que está fora do tom no seu mundo interior, tem a possibilidade de repensar mudanças, alternativas, caminhos para a calmaria e a serenidade. Se isso é o que deseja alcançar.

Não posso acreditar que o excesso de ruídos promova a tranquilidade interior. Por outro lado, não é possível assegurar que o silêncio seja terapêutico para todos. Uma pessoa que não possui o mínimo de resiliência para lidar com as suas inquietudes, pode, de fato, não sentir efeitos benéficos diante do silêncio.

No nosso cotidiano, podemos encontrar a quietude fazendo pequenos movimentos como não ligar a televisão, o rádio ou outros dispositivos eletrônicos, até para ouvirmos o ruído da rua e, assim, sermos capazes de sentir o mundo do lado de fora sem sair de casa. É desafiador calar e conviver com o silêncio do outro. Há um entendimento no ar de que tudo precisa ser ágil.

Temos dificuldades para lidar com o silêncio entre o envio de uma mensagem e o recebimento da resposta. De certa forma, controlamos o silêncio alheio. Quando enviamos uma correspondência para alguém, conseguimos conferir se o outro visualizou o texto. Cobramos urgência na resposta. Nietzsche dizia que é melhor expressar nossos sentimentos, mesmo sem encontrar as palavras adequadas, do que ofender com o silêncio.

Ao que parece, o filósofo queria mostrar que o silêncio deixa um vazio, um espaço para que o outro reflita, o que pode ser inquietante e promover o entendimento. Ou a angústia.

Dirce Becker Delwing é Psicóloga e Psicanalista

One thought

  1. Morando no litoral norte do estado do RS, num apartamento de fundos, podia ouvir e sentir o silêncio. Profundo, denso e tremendamente envolvente. Quem conhece o lugar, sabe que durante uma boa parte do ano este silêncio é a realidade do local. Mas longe de entendiar-me, ele permitia reflexões e resoluções interiores. Mergulhos no meu eu, pensamentos do que fora e dos erros e acertos de minha vida. Em cada erro pensado e revirado, descobria os motivos. Resolvia-os e colocava-os em escaninhos de meu cérebro como solucionado. O perdoar-me é gratificante. Os erros de outros analisados sobre a lente fina do microscópio dos motivos. E a aceitação ou o julgamento permitindo que ficasse para trás, como já o era. Medo? Não mais. O encontro gratificante, viciante do silêncio.

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