Mandar embora ou deixar ir

Sandra Veroneze
sandra.veroneze@pragmatha.com.br

Para muitas relações, o fim é inevitável. Existem encontros com prazo de validade – combinado ou não. Funcionaram para um verão, para um projeto, para um momento da vida. É o cliente que rompeu o contrato, um amigo na infância que mudou de cidade ou colégio, uma paixão arrebatadora que não deve evoluir, um amigo que se isolou… Como lidar com esta fase de necessária despedida, se o coração ainda pulsa e deseja a conexão?

Há quem prefira cortes bruscos, ancorados na razão. São pessoas que aprenderam ao longo de suas vidas que dói menos “mandar embora”. Ao menor sinal de que é chegada a hora de se afastar, disparam um comando interno, se posicionam radicalmente, deixam de fazer contato e prejudicam qualquer aproximação – com a situação, com os sentimentos, com lembranças e até mesmo com as pessoas envolvidas ou que possam reavivar a experiência daquele encontro. Há até quem crie em suas mentes quadros negativos, para facilitar o afastamento: “nem era tão bom”, “não vai fazer falta”, “vida que segue” podem dizer a si mesmos.

Existem muitas formas de dizer “não me procure mais”. São diversos os recursos para criar distâncias. Ligações não atendidas, respostas evasivas ou secas nas mensagens de texto e até mesmo a total falta de resposta, deixando o outro “no vácuo”, são alguns. A função “bloquear” nos aplicativos de conversa podem ser de grande utilidade. Uma forma um pouco mais sofisticada, muitas vezes aplicada de maneira inconsciente, é gerar briga, desentendimento, para que reste algo ruim, desagradável, levando à conclusão a ambos de que “não quero isso para a minha vida”. Freud explica.

E se em vez de “mandar embora” simplesmente “deixemos ir”? “Deixar ir”, que pode ser tão ou até mais doloroso do que mandar embora, pressupõe respeitar o ritmo da fase final deste encontro, com todas suas dores e desafios. Vai bater saudade, vai bater a dúvida, e nestes momentos podemos contar a nós mesmos muitas histórias para aliviar a dor: não era para ser, era o que tinha a ser feito, não tive escolha…

Estamos falando de histórias de amor? Provavelmente, estejam elas na embalagem de um relacionamento a dois, de amizade, profissional ou até mesmo familiar. Quando os encontros são reais, seja por uma atração, seja por um projeto que foi construído conjuntamente e que tem muito de nosso afeto, suor e dedicação, há um laço diferente envolvendo as pessoas que sonharam e realizaram juntas. Que o digam os inúmeros gestores que se veem obrigados a dissolver equipes após concluir um trabalho temporário, ou demitir algum funcionário porque ele mudou, ou porque a empresa e suas necessidades mudaram. Sofrem, cada um na justa medida do quanto quis, do quanto se envolveu, e do quanto se permitiu, porque, salvo pessoas com sérios distúrbios emocionais, todo e qualquer corte deixa sua marca.

Existem, porém, boas notícias. Se o encontro valeu a pena, se mexeu e trouxe crescimento, e respeitando a lei dos ciclos, o laço permanece. O cliente pode se tornar amigo, o amigo de infância que se mudou pode ser buscado via redes sociais, a paixão arrebatadora pode se tornar uma deliciosa amizade, o amigo que se isolou pode resolver suas questões e voltar ao convívio… O outro já não será o mesmo, nem tampouco nós. Seja com o “mandar embora” ou com o “deixar ir”, houve o fim, houve a despedida, e na continuidade do ciclo houve um reencontro, agora com um novo jeito, um novo matiz, novas perspectivas, alegrias e trocas.

E vida que segue!

Sandra Veroneze é Filósofa Clínica

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