Feliz 1976!

31 de dezembro de 1975, minha resolução para o próximo ano é ser feliz: brincar, comer e fazer amigos.

A felicidade é simples quando se tem seis anos de idade. É a idade do meu filho hoje. A criança ensina-nos a verdadeira resiliência, aquela que não carrega mágoa, que supera limites e nos faz enxergar o lado da bom da vida apesar, dos percalços. Por isso, com certa frequência, visito o passado e o observo a menina de “maria-chiquinha”, cheia de perguntas e uma certeza: a felicidade está nas pequenas coisas do dia a dia.

Não me prendo àquele tempo porque já não pertenço mais a ele, apenas aprecio por alguns minutos a sensação de voar alto no balanço de corda e tábua que meu pai fez especialmente para mim, no sabor da bergamota azedinha que meu avô oferecia-me ou no doce que minha avó fazia para os netos – sempre reservando o meu pedaço –, na cumplicidade da nova amizade e na mão da minha mãe protegendo-me de todo mal.

A viagem no tempo, às vezes, remete-me ao futuro. Penso no meu filho e nos desafios que ele terá pela frente. Não me prendo a esse tempo porque ainda não me pertence, apenas reflito como posso no momento presente deixar “pistas” de modo que, daqui a alguns anos, ele possa segui-las como João e Maria de volta a seu lar, seu estado de felicidade quando, por um descuido, perder-se por aí. Não sei muito desta vida apesar de ter cumprido uma boa parte dessa caminha. Mas uma coisa aprendi: viver o presente não é simples quando se tem um passado mal resolvido e um futuro tomado pela dúvida. A menina que fui, não perdia tempo pensando nas bonecas quebradas nem se perguntando como seria o seu corpo aos 49 anos. Ela deitava sobre o peito do pai e dormia o sono dos anjos, sentia o olhar atento da mãe a qualquer distância e seguia segura em suas aventuras na copa das árvores. A felicidade está em viver no presente as pequenas coisas do dia a dia. Pode ser receber um cafuné de quem se ama, tomar um banho de mangueira com a galera da quadra, colher macela na beira da estrada no passeio de Páscoa com a família… Incrível como certas coisas marcam a vida da gente.

Nenhuma delas, encontra-se no banco. Só se for no banco da praça. As grandes conquistas são importantes, com certeza, porém o que fica mesmo são as pequenas coisas do dia a dia. Ainda hoje, lembro do cheiro da minha mãe morta há mais de 30 anos enquanto me esforço-me em para lembrar a placa do meu carro. A minha “melhor amiga no verão de 1975”, com todo o respeito e carinho aos meus milhares de amigos virtuais, preenche meu coração com uma ternura de um modo que nenhuma tecnologia poderá suprir. Vivi na era do toque, do olho-no-olho, dos diários manuscritos. Não é saudosismo. É a lição que, de tempos em tempos, precisamos resgatar.

31 de dezembro de 2018, minha resolução para o próximo ano é ser feliz: brincar, comer e fazer amigos.

Andrea Guerreiro de Souza é Coach

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