Da ordem do óbvio

O mundo é redondo. Nenhuma possibilidade de ir “lá fora” quando se trata da nave mãe. Se andarmos em linha reta voltaremos ao lugar de partida, leve o tempo que levar. Olhos redondos, crânio, redondo. Face, redondas ou arredondadas.

O ventre da mãe que espera uma nova vida, também redondo. O entorno de um lago é redondo; redondas são as copas das árvores. Redondo o céu de anil visto lá de cima do avião. Redondo é o seio da mãe que derrama nutrição.

“Nas redondezas” significa perto de casa. Redonda é a roda das cirandas que celebram o encontro. Redonda é a praça; redondo o balão da criança que foi para o ar. Redondas são as naves das igrejas e os telhados dos castelos. Redondo o aquário onde o peixinho dourado vive. Redonda é a mesa onde todos se veem e podem se tocar com os olhares.

Redondos os pratos servidos à mesa. Redondo o tapete que quer aconchegar o ambiente. Redondas as rodas dos veículos que se deslocam levando coisas e gentes de um ponto a outro. Redonda, a conversa que termina em solução para todos.

Redondo o bolo de aniversário que celebra mais um ano de vida. Redondo, o olhar sistêmico que percebe o todo para compreender melhor. Redondas as formas da mulher amada a seduzir o amante num abraço redondo. Redondo o silêncio de paz depois do amor… Redondo o sol e todos os planetas que se equilibram no Universo em suas órbitas redondas.

Então, agora, me diga você: – onde há lugar para o áspero, partido, picado, cheio de arestas, dividido, distanciado e empobrecido de um mundo das facções, das opiniões que nos afastam, das línguas ferinas que chicoteiam, da indiferença que faz doer mais ainda a dor e que tornam o mundo um local pontiagudo e espinhoso impossível de se viver em ética fraternal?

Pois que o Amor também é redondo quando faz a volta de um coração a outro.

  • Alcione Albuquerque é Psicóloga Clínica

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