Da ordem do óbvio

O mundo é redondo. Nenhuma possibilidade de ir “lá fora” quando se trata da nave mãe. Se andarmos em linha reta voltaremos ao lugar de partida, leve o tempo que levar. Olhos redondos, crânio, redondo. Face, redondas ou arredondadas.

O ventre da mãe que espera uma nova vida, também redondo. O entorno de um lago é redondo; redondas são as copas das árvores. Redondo o céu de anil visto lá de cima do avião. Redondo é o seio da mãe que derrama nutrição.

“Nas redondezas” significa perto de casa. Redonda é a roda das cirandas que celebram o encontro. Redonda é a praça; redondo o balão da criança que foi para o ar. Redondas são as naves das igrejas e os telhados dos castelos. Redondo o aquário onde o peixinho dourado vive. Redonda é a mesa onde todos se veem e podem se tocar com os olhares.

Redondos os pratos servidos à mesa. Redondo o tapete que quer aconchegar o ambiente. Redondas as rodas dos veículos que se deslocam levando coisas e gentes de um ponto a outro. Redonda, a conversa que termina em solução para todos.

Redondo o bolo de aniversário que celebra mais um ano de vida. Redondo, o olhar sistêmico que percebe o todo para compreender melhor. Redondas as formas da mulher amada a seduzir o amante num abraço redondo. Redondo o silêncio de paz depois do amor… Redondo o sol e todos os planetas que se equilibram no Universo em suas órbitas redondas.

Então, agora, me diga você: – onde há lugar para o áspero, partido, picado, cheio de arestas, dividido, distanciado e empobrecido de um mundo das facções, das opiniões que nos afastam, das línguas ferinas que chicoteiam, da indiferença que faz doer mais ainda a dor e que tornam o mundo um local pontiagudo e espinhoso impossível de se viver em ética fraternal?

Pois que o Amor também é redondo quando faz a volta de um coração a outro.

  • Alcione Albuquerque é Psicóloga Clínica

Amigos, amigos; negócios à parte?

Sempre me causou dúvidas a premissa de que amizade e negócios têm regras próprias e que não devem se misturar. Amigos, amigos, negócios à parte? O que isso significa, exatamente?

Na minha vida, sempre que ouvi a expressão ela estava relacionada a uma advertência de que não devemos ser condescendentes, benevolentes, pacientes e tantas outras “virtudes passivas” no trato com amigos e conhecidos, quando se tratava de obter lucro e fazer crescer nossas empresas. Oras, se em meu trabalho eu não for bacana com os meus amigos, com quem serei então?

Sempre optei em facilitar as coisas para pessoas próximas. Não seria essa colaboração a base para o que de fato é, em essência, uma parceria? Às vezes um pequeno desvio na regra (uma parcela a mais para pagar, um desconto um pouco maior do que a tabela apresenta, um horário diferenciado para atendimento, ou até mesmo a não cobrança) pode fazer toda diferença para o amigo. Para o negócio é um ganho? Nem sempre. Mas será que só se trata de finanças?

Precisamos repensar a maneira como fazemos negócios. Às vezes me parece, observando alguns mantras do mundo corporativo, que se trata de uma grande arena, somente com predadores, e que não importa se o oponente é um amigo, um conhecido, ou um completo estranho – mate, devore, acabe com ele! Não se estranha, portanto, aquilo que se convencionou chamar de ‘puxada de tapete’, muito embora possa causar revolta em quem sofre e uma certa satisfação em quem pratica. Há, inclusive, quem não se importe de se apropriar de clientes de parceiros… “É do jogo” – dizem.

Mas que jogo é este? E quem se propõe a jogá-lo?

É o jogo do sucesso a qualquer preço, dos fins que justificam os meios. Tem sua lógica? Tem. Teu seu valor? Provavelmente. É nele que você quer jogar? É uma escolha.

Pessoalmente, tenho observado nos últimos tempos uma nova postura emergir nos negócios, principalmente em setores que lidam com criatividade, inovação e com preocupação ambiental, social, cultural. Ancoradas na colaboração, essas empresas crescem a cada parceria, a cada união, compensando fragilidades umas das outras e se fortalecendo em seus aspectos positivos. O resultado? Mais e melhores soluções para o cliente, que é a fonte do lucro, por sua vez mais e melhor distribuído e portanto gerador de riqueza para mais negócios. No longo prazo, é minha aposta, é o tipo de negócio que sobreviverá.

Amigos, amigos, negócios à parte? Mesmo?

  • Sandra Veroneze é jornalista e filósofa clínica

5 verdades cruas sobre a felicidade

Todos temos uma ideia do que é a felicidade e do que precisamos para torná-la completa em nossas vidas. Muito sobre ela tem se falado, ao longo dos séculos, não raras vezes criando mitos. Para além da idealização, porém, existem algumas verdades que são incontestáveis. Veja:

Aquela felicidade da propaganda de margarina existe
Nos últimos tempos os comerciais de margarina, na tevê, tornaram-se sinônimo de ilusão, de meta impossível de ser alcançada. Não é verdade. Momentos de puro êxtase, na companhia de quem se ama, repletos de sorrisos, podem acontecer todos os dias. Provavelmente não se mantenham as 24 horas de um mesmo dia, mas o que é a vida senão a soma de momentos?

Cobrar-se ser feliz é uma fonte inesgotável de estafa e stress
Verbos no imperativo não costumam acompanhar uma vida tranquila. Faça isso / seja aquele outro / aja desta forma são passaportes para esgotamento físico, emocional, mental. Pode existir ordem mais cruel do que “Seja feliz”, considerando a natureza leve e espontânea da felicidade?

Nem todos os dias serão extraordinários
Todos gostamos de momentos felizes e realizados, porém poderá acontecer deles não serem a maioria na ampla gama de sentimentos possíveis ao longo de um dia. Talvez não sejam nem frequentes. Os momentos tristes, melancólicos, de apatia, ou simplesmente neutros, também fazem parte e há de se lidar com eles. Porém, se permanecerem por mais de uma semana, de maneira muito profunda e desanimadora, busque ajuda.

Você nunca será feliz até definir o que é, para você, felicidade
Felicidade é um conceito subjetivo. É diferente para cada um. Observar como as outras pessoas são felizes serve como pesquisa de campo, estudo antropológico, mas costuma ser bem ineficaz quando se trata de realização pessoal. Saber o que faz você feliz e conectar-se com essa essência é o caminho.

A felicidade é uma construção
Ser feliz exige disciplina. Uma atitude simples que ajuda a construí-la, como atentar sempre para os fatores positivos de cada situação, nem sempre é fácil. Felicidade não cai do céu, não dá em planta e seu florescer depende de regá-la, todos os dias. Dá trabalho, mas vale o esforço. Vários teóricos garantem, inclusive, que ela reside na própria jornada.

Sandra Veroneze é Jornalista e Filósofa Clínica

Dinheiro, um maneira de realizar sonhos

Vários são os fatores que podem estimular as pessoas a algum tipo de movimento. Normalmente fatores associados ao lazer e ao bem-estar são mais prazerosos e tendemos a realizá-los com maior facilidade. Porém, ser um profissional bem-sucedido também gera um estímulo positivo, principalmente se estiver dedicando-se ao que se gosta.

Em algumas culturas o fato de ter ou acumular riquezas não é visto com maus olhos, mas sim como a recompensa pelo trabalho e esforço dedicado a uma função ou tarefa, da mesma maneira que em outras culturas o fato de se ter dinheiro gera certo desconforto e constrangimento.

Diz um ditado popular que “de grão em grão a galinha enche o papo”, pois o bolso também se enche assim, de várias pequenas quantias e a cada economia realizada, a não ser, é claro, que se ganhe na loteria.

Um professor contou uma história sobre o encontro dele com um amigo, que fez uma observação sobre o carro que ele estava dirigindo. O amigo disse o seguinte: – Que carrão, tu estás rico? O professor disse ao amigo: – Rico não estou, mas tenho trabalhado muito e consegui juntar dinheiro para comprar o carro dos meus sonhos.

Algumas pessoas diriam “que nada, esse carro é usado, comprei de segunda mão, nem vale tanto”, diminuindo o produto de seu esforço, demonstrando constrangimento por ter alcançado, com seus méritos, um bem de valor.

Os sonhos são muito pessoais. Muitas pessoas sonham em comprar a casa própria ou abrir o próprio negócio, outros sonham com uma festa de formatura ou casamento e há aqueles que amam viajar. Pertencemos ao último grupo. Amamos viajar e acreditamos ser a maior riqueza que podemos adquirir.

Seja para comprar um imóvel, abrir um negócio, realizar uma festa ou embarcar em uma viagem, é preciso planejar, principalmente quando os recursos financeiros são escassos. Neste caso, será necessário tempo de pesquisa, definição de prioridades, negociação e muita força de vontade. A soma destes aspectos pode tornar o caminho menos árduo e a realização do sonho mais possível.

Vamos imaginar que os recursos, tempo, métodos e dinheiro são os pontos de um triângulo, e que ele sempre se manterá com a mesma área, de forma que quando um ponto é deslocado os demais também são, porém inevitavelmente os três aspectos não poderão ser aumentados ao mesmo tempo. Sendo assim, quando aumentamos o tempo, podemos despender menos recursos financeiros e os métodos podem ser mais flexíveis. Vendo de outro modo, se for necessário diminuirmos o tempo, precisaremos aportar mais recursos financeiros e ter em mente métodos mais eficientes.

Por exemplo, quando temos tempo para planejar uma viagem longa, conseguimos negociar hospedagem, passagens aéreas e passeios. E com esta antecedência, normalmente, tendemos a despender menos recursos financeiros, gerando economia, e provavelmente teremos aplicado um método mais eficiente para o resultado final. De outra forma, quando dispomos de pouco tempo para organizar uma viagem possivelmente pagaremos mais caro pela passagem aérea e a diária do hotel. Neste exemplo a variável tempo é diretamente proporcional à variável dinheiro, sendo influenciada pelo método. Quanto mais tempo dispomos, melhores serão os métodos utilizados e possivelmente menor será a quantia financeira empregada.

Atualmente tem se tornado corriqueiro culpar a falta de recursos financeiros pelo insucesso na busca dos desejos. Para melhor administração dos recursos financeiros, é preciso ter em mente que se deve sempre gastar menos do que se recebe. Esta tarefa não é fácil, mas é possível. E em uma visão mais positivista, vendo o copo meio cheio, o ideal seria conseguir receber mais do que se gasta.

É importante possuir ferramentas de controle das finanças, seja um simples caderninho com as anotações financeiras, ou uma planilha de cálculos, ou até mesmo algum aplicativo próprio para estes controles.

Independente da ferramenta utilizada, este controle pode ser dividido em três passos básicos:

Receita: São todos os valores recebidos. Vale anotar o salário do mês, a venda de uma roupa ou sapato em um brechó, de artesanato, de produtos de beleza vendidos por catálogo, a renda de uma aplicação bancária, o saldo da troca de um carro ou da venda de outro bem. Enfim, tudo que representar uma entrada de recursos financeiros

Despesas fixas: Todos os valores que ocorrem em períodos frequentes. Nas despesas fixas pode-se considerar aluguel de imóvel e de vaga de garagem, luz, água, condomínio, internet, canais de televisão por assinatura, aplicativos de filmes, séries e música por assinatura, prestação de carro, seguro, combustível, diarista, manicure, supermercado, escola, faculdade, curso de idiomas, plano de saúde, IPTU, IPVA e outras contas que fazem parte da rotina de pagamentos. Aqui não dá pra deixar de fora uma reserva para emergências e as aplicações financeiras.

Despesas variáveis: São valores pagos eventualmente. Este ponto é o mais difícil de prever, mas vale considerar restaurantes, farmácia, cabeleireiro, lavanderia, cinema, compra e reparos de roupas e calçados, manutenção de carro, compra de artigos para casa e até algum presente para alguém especial. O ideal é estipular um valor mensal, proporcional ao tamanho das receitas, para esses eventos.

Quando todos os valores de entradas e saídas forem colocados no papel ou em uma planilha, será possível analisar onde os recursos estão sendo alocados e onde será possível apertar os gastos, para que seja viável sobrarem recursos para a realização dos sonhos.

Muitas pessoas acham que nunca conseguirão juntar um valor para fazer uma viagem ou para comemorar sua formatura, mas também nunca pararam para analisar o quanto ganham e quanto gastam. Sem este olhar profundo qualquer passo ou decisão pode ser arriscado.

Através do acompanhamento e análise da rotina financeira será possível determinar metas, traçar objetivos, e dar o primeiro passo para conquistar o que se quer. É olhando quanto se gasta em aluguel, condomínio, IPTU e transporte que se cogita trocar estas despesas pela prestação de um apartamento mais próximo do trabalho.

Sabendo quanto se gasta em restaurantes e supermercado, pode-se mudar os hábitos de consumo, e, quando possível, fazer mais refeições em casa. Outra alternativa é programar uma sessão de cinema em casa, assistindo a algum filme do aplicativo de filmes e séries ou dos canais de televisão por assinatura.

Pequenas economias fazem uma grande diferença. Não dá para esquecer da história da galinha, que de grão em grão enche o papo. Quando voltamos de uma viagem, desfazemos as malas, curtimos as fotos e as lembranças, e logo já pensamos em fazer as malas mais uma vez. Uma vez por ano irmos para um lugar que nunca estivemos nos faz descobrir coisas novas, enriquece a alma pela troca de experiências com outras culturas.

Mas economizar não pode se tornar um sofrimento, uma luta impossível ou um fardo difícil de carregar. Deve ser feita com atenção e sempre com atitude positiva em prol de algo bom. Também é importante saber usar o crédito disponibilizado pelo banco, seja o cheque especial, o talão de cheques ou o cartão de crédito. E até mesmo o crédito de lojas de departamento e supermercados. Vivemos a realidade de juros altos e impiedosos. Qualquer atraso de pagamentos acarreta em juros, onde o pagamento parcial ou protelado pode se tornar uma dívida impagável.

O crédito, se bem utilizado, pode ser vantajoso, principalmente pelos programas de milhagem, oferecidos em vários cartões. Claro que com um rígido controle de gastos, pois o fato de utilizar o cartão crédito ao invés do dinheiro pode gerar a falsa sensação de que não se está gastando. Mas não se engane, o gasto é o mesmo, o que muda é a forma e o prazo para pagamento.

É sempre importante ponderar o que se compra e avaliar a real necessidade das aquisições deixando o impulso de lado.

As empresas costumam utilizar um ciclo de trabalho que envolve planejamento, realização, avaliação e correção, que pode perfeitamente ser aplicado na vida pessoal de cada um. Pois gerir os recursos tempo, métodos e dinheiro envolve estes passos.

Em qualquer esforço empregado na busca ou conquista de algo será preciso lidar com estes quatro fatores:

Planejamento. Ele vai proporcionar uma diretriz de como, onde e quando fazer. Ele será o norte, a linha guia de todo o caminho.

Realização. Toma como base o planejamento e tudo o que nele foi pensado. Neste passo é possível ver o que foi planejado saindo do papel e tomando forma.

Avaliação. Quando as devidas ações já foram tomadas é possível avaliá-las. A avaliação deve ser realista e levar em conta o que está dando certo e o que pode ser melhorado.

Correção. Aqui é o momento de redirecionar os esforços e concentrar as energias. Nesta etapa surge a oportunidade de se fazer um novo planejamento e de começar o ciclo mais uma vez, e por tantas vezes quanto forem necessárias.

Este ciclo amplamente utilizado por empresas se assemelha em muitos aspectos ao ciclo SPR (sonhar, planejar e realizar). E pode contribuir para a realização dos mais diversos sonhos e projetos.

A forma de acumular riqueza é muito pessoal, pois as necessidades e prioridades são individuais. Mas é muito importante ter consciência de como se aplica o dinheiro. Para isso o controle é a melhor forma de adquirir uma leitura correta de como e onde se está gastando, para que seja possível entender onde se pode ajustar os gastos e onde é necessário aplicar mais valores.

Nossa vida é cercada de incertezas, assim como o meio em que estamos inseridos. É importante gerar reserva para que seja possível administrar melhor essas incertezas, e navegar com maior tranquilidade em um possível mar revolto. Por outro lado, não podemos deixar de lado as coisas que nos fazem felizes, que nos ajudam a gerar uma boa qualidade de vida e a enfrentar o dia a dia com maior disposição.

Nossa grande tarefa é encontrar o ponto de equilíbrio entre poupar e ser feliz. Parecem caminhos opostos, mas são paralelos que podem se atrair em um determinado porto do percurso, dependendo da forma como será aplicado o resultado da economia.

A vida é um desafio constante, e este é apenas mais um dos leões diários, ou não, dependendo da leveza que se aplica nessa tarefa, o leão pode se tornar um gato manso.

É importante desmistificar a palavra poupar, se utilizando de ferramentas e da possibilidade de crédito consciente. Entendendo que é necessário um esforço para atingir as metas, sempre observando os métodos, que caso não estejam trazendo os melhores resultados, devem ser revistos com agilidade.

O segredo é não deixar de sonhar, e saber que sempre há uma maneira de alcançar o que se quer.

Melissa Kamimura é Administradora Especialista em Orçamento Empresarial

Edegar Kamimura é Eletrotécnico e Administrador

Sobre o tempo e momentos

Me diga: você tem pressa? Me diga mais: você acha que o tempo passa rápido demais? Tirando as relatividades que o assunto envolve, me deixe responder a você: eu não, não mais. Desde que me tornei pai, meu aprendizado começou na minha relação tempo / proveito. Sempre quis ser pai – e de duas crianças, como sou agora. Mas também sempre trabalhei muito – como funcionário de empresa e, ao mesmo tempo, com a minha própria. Noites eram seguidamente utilizadas para fechar alguma revista, finais de semana eram usados, muitas vezes, para criar uma nova marca para um cliente. Eu gostava, claro, mas era para mim como uma espera para uma ocupação bem mais satisfatória. E chamar de “ocupação” seria injusto, já que muitas vezes sou mais aluno do que professor. Mas do tempo – quanto a este tive que me reeducar sozinho.

Quando meu primeiro filho nasceu, comecei a reavaliar os clientes que aceitaria dali para frente. Nada de prazos apertados, nada de projetos que não valeriam o tempo utilizado. Se perdi algum dinheiro? Provavelmente, mas ganhei o tempo de estar presente e ver meu filho se desenvolver, e não perdi vários dos seus “primeiros”: sorrisos, choros, palavras, ações. Quando ele começou a ir para a escola, me identifiquei com a rotina que eu tanto precisava. Meus horários de trabalho seriam definidos pelos momentos que não estivéssemos juntos. Trabalhando em projetos pontuais, poderia adaptar todos os ganhos à realidade que me convinha, e que eu buscava sem saber: ter tempo. Veja que é diferente de “ganhar” tempo: é “ter” mesmo, possuir, não se desfazer e não desperdiçar.

Ao término de um dia de trabalho, no momento em que o buscava na escola, uma chave virava. Começava mais um momento com ele. Mesmo que fossem vários: levar para casa cantando uma canção infantil ou já apresentando algum rock; persegui-lo pela casa para, enfim, adentrar ao banho; brincar com a imaginação ou com um palito, fingindo ser um personagem; dormir abraçado, sentindo sua respiração constante e sua mão a segurar meu peito. Momentos de colecionar, de arquivar na memória sem a preocupação de ter espaço – sempre tem. Quando meu segundo filho nasceu, exponenciei toda essa relação, com mais oportunidades para me dedicar a eles. Eu tinha, então, a possibilidade (o tempo!) de fazer tudo de novo, com o bônus de continuar acompanhando o que veio primeiro. Mais ajustes: brincar com dois de diferentes idades, a tarefa difícil mais prazerosa que já cumpri. E continuo.

Expandi essa concepção para o restante das minhas relações de amigos e família, e vi minha vida ganhar mais sentidos. O tempo não era, enfim, um inimigo, mas algo que deve ser aproveitado mesmo quando for para fazer nada. Aprendi (e repasso essa ideia sempre) que a vida é feita de momentos, e que esses, veja só, estão amarrados ao tempo de uma forma eterna. Lamentar o passar do tempo é ter a ideia errada de que não se aproveitou. Já a saudade do minuto que passou é saudável, por garantir a importância que aquele momento significou. Então, numa coleção de momentos eternos, a satisfação é ver que há uma vida cheia de significados, e que o tempo, de vilão, passa a ser um companheiro; que a pressa só apressa o que deve ser curtido no tempo certo; e que o tempo, esse senhor, é um menino lhe esperando para brincar. Sem pressa.

  • Luciano Seade é Jornalista e Designer Gráfico

O que faz a diferença é o caráter

Estou cada vez mais convicto de que se não trabalharmos arduamente na formação do caráter de nada valerão as melhores habilidades e conhecimentos que alguém possa ter.

Ainda vivemos muito preocupados – nas famílias, nas instituições de ensino e nas empresas -, em proporcionar acesso e condições de desenvolvimento de habilidades e conhecimentos que possibilitem ao futuro profissional e mesmo àqueles que já atuam o instrumental necessário para que sejam bem-sucedidos em suas carreiras, seja em qualquer área ou profissão escolhida.

Assim tem sido a preocupação de muitos pais, o currículo e projeto pedagógico de muitas escolas e universidades e os programas de treinamento e desenvolvimento das empresas.

Decerto temos profissionais extremamente competentes em várias áreas, estrategistas, com alto nível de conhecimento e tantas habilidades que são capazes de elevar suas equipes e organizações para altos patamares de rentabilidade e lucratividade. No entanto, esses mesmos profissionais, por desvio de caráter, são capazes de manchar a reputação das empresas, além da própria, gerando grande prejuízo para toda a cadeia e para a sociedade.

Eis por quê defendo com ardor que precisamos investir em todos os tempos e lugares, no desenvolvimento das virtudes, dos valores humanos essenciais. Como disse Aristóteles, na Ética a Nicômaco, “a virtude do homem será a disposição do caráter que o torna bom e que o faz desempenhar bem a sua função” e “as coisas nobres e boas da vida só são alcançadas pelos que agem retamente”.

Possuir competências e não ter as virtudes como alicerce de vida e das decisões que precisam ser tomadas no dia-a-dia é o que temos testemunhado em nosso tempo. Como lembra o mestre Stephen Covey: “Precisamos trabalhar o caráter e a competência para solucionar os problemas estruturais e sistêmicos. Lembre-se: trabalhe primeiro o programador se quiser aperfeiçoar o programa”.

A começar em nossas casas na educação dos filhos, nas instituições de ensino que têm uma responsabilidade muito maior que apenas transmitir conhecimento e, por que não, nas organizações empresariais, urge que se desperte para a importância de se investir na formação em valores humanos, sem os quais tudo pode se perder.

Se quisermos um mundo melhor, o que significa melhores empresas, melhores famílias, melhores relações humanas etc, antes de tudo precisamos despertar e expandir a nossa consciência para a importância dos valores em nossa vida. O que fez, faz e a fará sempre a diferença é o caráter, a começar pelas lideranças. Aliás, é exatamente isso que, para mim, define um líder: o seu caráter.

  • Robson Santarém é Consultor, Escritor, Palestrante e Coach Executivo

De turista de academia a 3 mil quilômetros de bike ao ano

Você já deve ter lido vários textos e artigos sobre autossuperação – fazer mais com seu tempo e fazer melhor. Eu também já li e continuo lendo. Mas muita gente lê e acaba esquecendo, dificilmente coloca em prática. E continua a viver, dentro da sua rotina, fazendo mais do mesmo. Pois é. Mas que tal colocar algo em prática dessa vez?

Começo falando por mim, aquela aluna que fugia dos exercícios da educação física. Se não fosse para jogar bola, então era chato. Dia de correr, melhor era inventar uma desculpa, uma crise asmática na infância, ou alguma dor, até roupa inapropriada dava para tentar usar como argumento.

E quando a escola acaba, a vida adulta começa. Junto com ela queremos melhorar nossa aparência, verão chegando, afinal no sul do Brasil são três meses em que se pode colocar o biquíni. Então, que tal se inscrever em uma academia? Isso aí, três meses de academia completos, verão acabando, chega de malhar, é hora de usar casacos compridos.

A idade vai passando, você está estável no trabalho, faculdade concluída, relacionamentos e família tudo certinho e você começa a perceber que não cuidou de si. Dava prioridades a outras áreas, mas nada de levar uma vida sem sedentarismo. Pois bem, seja qual for sua referência, para ter um lazer, para melhorar a saúde, emagrecer, formar novos amigos ou para se autossuperar, qualquer argumento é válido.

Eu, por exemplo, resgatei uma paixão de infância, que era pedalar. Sempre tive bicicleta, mas usava para dar pequenas voltas. Casei com o companheiro com o mesmo gosto. Assim encontrei uma amiga, logo várias amigas e amigos, depois um grupo.

Ok, mas o que isso tem a ver com autossuperação na prática? Bom, quando eu comecei, não queria subir morros, buscava meus repertórios de desculpas guardados lá do tempo da escola. Mas com o incentivo, com metas e equipamentos corretos é sim possível mudar nossa forma de enxergar algumas coisas. Ter pessoas que acreditam em você é um primeiro passo. Aquelas que te ajudam a não desistir no primeiro tombo ou na primeira subida alta demais. Afinal, se você busca autossuperação em qualquer área da vida, é importante ter o apoio de pessoas que lhe inspiram e lhe mostram como você é capaz de fechar aquele negócios, ser aceito em um emprego, conquistar a pessoa que você ama.

Ter metas. A maioria das pessoas quer viver o agora. Tudo bem, só se vive uma vez, mas enquanto eu estou vivendo não posso deixar as páginas em branco. Que tal colocar lá no final da agenda que neste ano você quer pedalar 1.000 km, quer sair do nível básico do inglês, quer ter a casa própria. Sem saber onde queremos chegar, não se vai a lugar algum. Parece clichê, mas é verdade. Eu por exemplo, em 2018, iniciei com a meta de pedalar no mínimo 50km por semana, ou seja, quando eu puder eu ando mais, quando não der, pelo menos completo minha meta. Tudo também depende da prioridade que damos na nossa vida para cumprir os acordos conosco mesmo. Imprevistos acontecem, como lesões, doenças, mau tempo, ou mesmo muito trabalho, mas ainda assim é possível tirar aquela forcinha para completar o combinado com nós mesmos.

Equipamentos são importantes, uma boa bicicleta, uma roupa adequada, capacete para proteção, tudo melhora o desempenho, porém a força está dentro de nós. Será que eu consigo vencer essa subida ou ela me vence? Ir até outra cidade pedalando é loucura pra mim? Mas quando subo na minha bicicleta, percebo que a gente sempre pode um pouco mais, sempre tem uma forcinha interior guardada para percorrer os últimos quilômetros, para “sprintar” na linha de chegada.

A turista de academia aqui, no ano passado, pedalou mais de três mil quilômetros. E você, que tal começar hoje mesmo?

  • Larissa Missel Braga é publicitária

O que você vai ser quando crescer?

Certamente você já ouviu esta pergunta na sua infância: o que você quer ser quando crescer? As respostas poderiam ser as mais variadas possíveis. Eu respondia que queria ser secretária ou professora. E realmente já exerci funções parecidas com uma secretária e sou professora.

A questão é que, durante este percurso, influências diversas faz com que mudemos nossos sonhos. Conheço pessoas que fizeram suas escolhas bem jovens e hoje, na vida adulta. são felizes. Outras não tiveram muita escolha, foram induzidas e são frustradas. E também as que foram evoluindo na sua trajetória, iniciaram em uma área e hoje estão em outra diferente.

Uma das possibilidades que vêm sendo discutidas e até por vezes sendo uma válvula de escape para a rotina estressante do dia a dia profissional é a dedicação a um hobby. O conceito do hobby é bem diferente de trabalho, pois você o faz na hora que quiser, durante o tempo que quiser, faz por prazer e satisfação sem receber nada em troca. Eu já tive vários hobbys que viraram fonte de renda, mas como era mais jovem e a imaturidade interfere em nossas escolhas, me dediquei, inicialmente gostei, mas depois a rotina se tornou desgastante e desisti.

Você pode pensar: eu amo fazer doces caseiros, é um hobby, pode ser que dê certo… E aquela pergunta lá do início da nossa conversa, o que você quer ser quando crescer, parece ter uma resposta: isso aí, eu gostava de brincar de cozinhar quando era pequena e talvez até tenha pensando em ser uma grande chef! Então investe em materiais, começa a divulgar nas redes sociais seu novo negócio, sua nova profissão… As pessoas ficam admiradas: “nossa, como você tem tempo pra fazer tudo isso?”, “não acredito que você vai largar sua carreira pra vender brigadeiros” e por aí vai.

Amigos para elogiar sempre temos, mas para criticar e julgar temos sempre muito mais! Tenho amigas que abriram mão de suas profissões, se dedicando ao que inicialmente era um hobby, e estão felizes com suas escolhas. Problemas sempre terão, mas encontraram nessa atividade que faziam sem compromisso uma forma de auxiliar ou ser a principal renda da família.

Fazer o que se gosta é tão importante para nossa autoestima! Amar o que fazemos profissionalmente é uma meta para quem tem noção da importância desta atividade durante tantos dias da nossa vida. Preenche muitas horas da nossa semana e é realmente necessário nos sentirmos bem no ambiente laboral.

Há dez anos atrás, eu e meu esposo começamos a cantar em eventos particulares. Inicialmente, em festas de amigos, depois em festas maiores, como o carnaval da cidade e no coral de uma universidade. O nosso dom para música, que começou há mais de 20 anos, dentro de grupos de jovens da Igreja Católica, estava nos levando a conhecer pessoas e lugares diferentes. O que começou com um hobby (que convenhamos, música é tudo de bom!), foi se tornando também uma fonte de renda para nossa família.

Porém, a questão dos ensaios começou a impactar. Não tínhamos tempo, pois cada um trabalha em áreas diferentes, com viagens durante a semana, e cantar em um evento sem ensaiar é falta de comprometimento com o cliente que contratou, com as pessoas que estão assistindo e consigo mesmo. Decidimos diminuir o ritmo.

Ter um hobby me ajuda a ser uma pessoa mais leve, muito embora, por vezes, a dedicação nesta atividade seja maior do que no trabalho. Sabemos que nada é perfeito, que por vezes temos que recuar, diminuir a intensidade (de ambos, trabalho e hobby) em detrimento dos nossos projetos e sonhos futuros. É possível conciliar nossa atividade profissional com uma atividade prazerosa, seja cozinhando, escrevendo, pintando, cultivando uma horta, andando de bicicleta, costurando, dançando, fazendo um trabalho voluntário. Afinal, são infinitas as possibilidades.

Descubra a sua, aproveite, divirta-se, e quem sabe um dia esse hobby seja também uma atividade profissional. Com planejamento, organização e paciência, pode dar certo, basta começar!

  • Natália Masiero é Gestora de RH

Saúde financeira em tempos de incerteza

No Brasil vivemos à sombra de alguns fantasmas, como crise, recessão e estagnação econômica, e de um modo geral as pessoas e as organizações tendem a conter despesas e custos quando vislumbram um cenário econômico desfavorável.

De certa forma esta atitude de preservação colabora para o aumento de um cenário econômico desfavorável, pois quanto menos se gasta, menos recursos financeiros circulam no mercado, o comércio fatura menos e as indústrias diminuem suas produções.

Por outro lado, continuar despendendo recursos sem manter uma atitude de preservação pode ser prejudicial para a própria saúde financeira, pois não se sabe como se comportarão a economia e as finanças de um modo geral.

Diante deste impasse tendemos a preservar nosso patrimônio, e muitas vezes paramos de investir, seja em negócios, em bens, e até mesmo em nós mesmos. Ficamos receosos em investir em cursos de atualização profissional, curso de idioma, contratação de coach, planejamento de carreira, até mesmo na contratação de um profissional que possa nos auxiliar a nos organizarmos neste momento.

Muitas vezes deixamos de olhar para o futuro do caminho que estamos traçando, ou para uma nova carreira, uma nova graduação ou para um curso de alguma área de interesse, muitas vezes diferente da rotina em que estamos inseridos.

Reinventar-se, muitas vezes, não é fácil, mas é necessário. Ampliar o leque de opções e estar atento às novas oportunidades é essencial em momentos de incertezas, e estas incertezas podem vir de uma remodelação interna, pessoal e emocional, ou mesmo do ambiente externo, como crise, recessão e estagnação econômica.

Conhecer-se possibilita aplicar melhor os recursos disponíveis, tanto os financeiros e de tempo como os emocionais. Quando nos conhecemos podemos dispor de recursos da melhor forma possível no momento em que é necessário.

Poder se desenvolver e crescer em momentos de incertezas e mudanças nos fortalece para enfrentarmos cada vez mais adversidades, por isso é importante e muito saudável continuarmos investindo no nosso crescimento, aprendizado e desenvolvimento. Nos reinventarmos faz parte do percurso e torna mais fácil seguir em frente. A tão em voga resiliência.

Investir em um curso de empreendedorismo não é importante somente para alguém que deseja abrir um negócio, mas também para alguém que queira melhorar seu desempenho no ambiente de trabalho, com uma nova visão, uma nova perspectiva e novos alinhamentos.

Fazer um curso de idioma em outro país proporciona uma experiência fantástica, de inserção em outra cultura, outra realidade, angústias e preocupações, possibilita um aprendizado incrível de novas relações e pode proporcionar o desenvolvimento do sentimento da famosa empatia.

Claro que para realizar algum investimento também é necessário ter uma reserva de recursos financeiros. Por este motivo é importante a rotina de fazer uma reserva, seja um valor mensal, ou uma parte do aumento de salário recebido como promoção, ou até mesmo o tão esperado décimo terceiro salário.

Existem também cursos, palestras e treinamentos que não exigem um desembolso financeiro muito grande, algumas instituições de ensino e associações de classe proporcionam conhecimento a baixo custo e com qualidade. Para encontrar estas oportunidades é importante ficar atento às programações e aos pré-requisitos para realização de inscrições.

Não existe somente um caminho quando falamos de nos reinventarmos, o importante é nos conhecermos e identificarmos o que nos traz felicidade e satisfação, e de que forma podemos ir em busca do que queremos.

  • Melissa Kamimura é Especialista em Finanças

Rompendo com o destino de origem

Quem me conhece sabe que tenho uma propensão ao realismo e ao sarcasmo. O que a maioria não sabe é que herdei essas características da minha mãe. Tudo para ela sempre é muito simples, branco ou preto, certo ou errado, direita ou esquerda…

Minha mãe nunca acreditou em sonhos, nunca esperou que a vida lhe desse mais do que o que se espera para alguém do seu tipo, seja que tipo for – mulher, pobre, iletrada, cristã e todas as palavras que nos colocam naquelas caixinhas alinhadas nas prateleiras da vida.

Apesar desse olhar pragmático para a existência, minha mãe ensinava a quem quisesse com ela aprender que o futuro nós construímos desde cedo, que não se deve sonhar apenas – porque quem sonha muitas vezes dorme no ponto – mas que é preciso batalhar, dia após dia, pelo que se acredita e pelo que se quer.

Lembro de uma ocasião, no auge dos meus saudosos 10 anos, em que, cansada das correrias e brincadeiras de rua, me atirei sobre a cama de minha mãe enquanto ela pregava alguns botões e cerzia algumas meias (falava-se assim naquela época). Fiquei olhando o movimento da agulha, curtindo o tédio inerente de quem tem o mundo pela frente. Minha mãe questionou: “não tem tema pra fazer, filha?”. Com um ar displicente respondi com um desentusiasmado “não ‘tô’ com vontade”. Sem tirar os olhos da costura, com a mesma calma de antes e como se aquilo fosse banal, sua única observação foi: “tá certo… tu tá na quarta série, já sabe ler e escrever, pra empregada doméstica já é o suficiente… Pra que estudar mais, não é?”

Arregalei meus olhos, dei um pulo da cama e fui rapidamente para os livros. Com aquela simples observação minha mãe me fez ver que para ir além da sua programação original, aquilo que podemos chamar de “destino de origem”, há um esforço muito maior, que exige muito mais aplicação e trabalho do que para quem já tem o caminho parcialmente trilhado (ou um destino de origem “melhor posicionado”). Eu sou filha de pedreiro. Seria diferente se fosse filha de médico? Com relação ao que se espera como “destino de origem”, certamente sim. Vejo que a questão já então dizia respeito não a maior ou menor valia desta ou daquela profissão, mas da possibilidade de ir além do que a minha situação inicial previa. A grande diferença era se eu buscaria ou não realizar meu sonho de expandir a caixa em que fora colocada quando nasci.

Confúcio já dizia que “sonhar com o impossível é o primeiro passo para torná-lo possível.” A simplicidade da minha mãe me fez ver que não se trata de sonhar, apenas, mas de ‘correr atrás’, esse conceito desconhecido pelas novas gerações. Eu não tinha, na infância, muitos caminhos a seguir, e isto é o que ocorre com a maioria das pessoas, e escolher o caminho certo dá trabalho. O caminho certo não envolve apenas fazer o que é legal ou moralmente correto, mas também fazer aquilo que reverbera no nosso interior, aquilo que queremos e do que nos orgulhamos.

Muito se fala que a nova geração não dará resultados no mundo corporativo – e isto não é necessariamente um mal – porque são jovens imediatistas e acreditam que tudo está ao alcance de suas mãos. Em termos de sobrevivência, isto provavelmente será um grande problema.

Vejo tantos colegas que possuem um espírito livre sofrendo em empregos formais, pessoas que se formaram em Direito querendo ajudar pessoas e que sofrem diariamente por estar inseridas no mundo corporativo, médicos cujo sonho era sarar a humanidade e que se encontram atolados em consultas insignificantes de males inventados pelo próprio ser humano, artistas que escolhem profissões tradicionais unicamente por medo de não conseguir dinheiro suficiente para sua subsistência… Fazer escolhas não é uma tarefa fácil, mas é a única tarefa sobre a qual temos total controle.

Minha mãe tinha dificuldade em entender que o que ela queria para suas filhas não era nada além de um sonho e, com isso, incutiu em nós o desejo de planejar e realizar.

Muito se fala que a nova geração não dará resultados no mundo corporativo – e isto não é necessariamente um mal – porque são jovens imediatistas e acreditam que tudo está ao alcance de suas mãos. Em termos de sobrevivência, isto provavelmente será um grande problema, pois nós, os “sábios” nascidos no século passado, sabemos que não há recursos e possibilidades para todos. Temos uma geração muito boa em sonhos, mas que não tem ideia do que seja planejar e este é o risco do sonho: imaginar que tudo no mundo acontece num passe de mágica.

A questão é que o acesso à informação desdiz qualquer pesquisa ou estudo sério a esse respeito. Pululam na rede casos de youtubers que ficaram milionários com um canal falando sobre tudo e nada, startups criadas em um apartamento que passaram a render milhões com ideias muitas vezes até simples, especuladores que ganham dinheiro sem construir absolutamente nada. E então vem o pensamento: “se eles fizeram, a minha vez vai chegar também, vou ter uma ideia que vai impactar o mundo e ficarei milionário!”

A realização sem qualquer planejamento apenas é possível àquela pequena gama de afortunados para quem a vida acontece no ritmo e forma certos, sem qualquer esforço, mas se isso não aconteceu com você até agora comece a imaginar que talvez você integre os 99% que precisam trabalhar para concretizar seus projetos.

O que a maioria não vê – ou não quer ver – é que mesmo por trás disso houve um grande planejamento. Nenhuma startup nasce do nada para o sucesso. Envolve investimento, não só financeiro, mas de tempo, paciência e muita tentativa e erro. Na fase do planejar é que muitos sonhos são abandonados, às vezes com sabedoria, porque nem tudo que sonhamos é viável, às vezes por ansiedade ou descrença no próprio potencial.

Como definiu Ambrose Bierce: “Planejar: preocupar-se por encontrar o melhor método para conseguir um resultado acidental.” Apesar dessa definição do sarcástico Bierce, o certo é que sem planejamento dificilmente o resultado, ainda que acidental, acontece. A realização sem qualquer planejamento apenas é possível àquela pequena gama de afortunados para quem a vida acontece no ritmo e forma certos, sem qualquer esforço, mas se isso não aconteceu com você até agora comece a imaginar que talvez você integre os 99% que precisam batalhar para concretizar seus projetos…
“São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades” – esta frase de Alvo Dumbledore (J.K. Rowling) nos faz lembrar que o que define nossas vidas é o que fazemos de fato. De nada adianta ter muitas qualidades se elas não retornam em nada concreto.

Quantos meninos e meninas prodígio têm uma vida adulta de desespero por não alcançarem a totalidade de seu potencial, geralmente por força de acreditarem que suas qualidades eram suficientes para que a vida retornasse os benefícios decorrentes de suas habilidades. Mas, como diz a música de Ana Vilela, “a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”. A vida passa muito rápido, somos apenas um grão de poeira no universo, mas podemos aproveitar esse curto recorte de espaço e tempo para construir algo além de nós mesmos, para construir a pessoa que queremos ser e a realização dos nossos sonhos está apenas em nossas mãos e, se não está, talvez esse sonho não seja realmente nosso

  • Clarisse Rozales é Advogada