Encontrar e acolher a si mesmo

O homem está sempre em busca de aperfeiçoamento. Procura assimilar novos conhecimentos, ampliar sua visão de mundo, bem como de si mesmo. Isto tem possibilidade cada vez mais termos alternativas, melhorar nossos comportamentos e performance pessoais ou profissionais. Desta forma, observamos que a cada dia temos novas opções para ampliar a visão de nós mesmos.

Autoconhecimento, ou conhecimento de si, em um sentido mais profundo, não é absorção de informações. Este processo tem a função primordial de nos movimentarmos para um saber próprio, de modo a proporcionar construções e desconstruções. Este conhecimento traz à luz questões que muitas vezes passam despercebidas (ou que não queremos admitir), visto que na maioria das vezes não desenvolvemos ainda muita intimidade conosco para alavancar nosso aprimoramento pessoal.

O autoconhecimento é um processo transformador, o maior investimento que podemos fazer por nós mesmos, pois quando nos conhecemos não reagimos impulsivamente aos nossos processos internos e à vida, mas desenvolvemos uma conexão consciente com nosso “eu” e com o mundo externo. Através deste processo, nos é permitido conhecer e trabalhar nossos conflitos e resistências, ou seja, as nossas sombras, bem como conhecer e desenvolver os nossos recursos, possibilidades e potencialidades, aumentando, desta forma, nossa autoestima, nos tornando mais fortes para encarar as adversidades da vida, gerando sentimento de autossatisfação, que é condição sine qua non para nossa felicidade e autorrealização profunda, o que é muito diferente do sentimento de euforia que o mundo nos oferece.

Em outras palavras, através do autoconhecimento “nos encontramos e nos acolhemos na unicidade e complexidade que nos é própria, para a partir deste ponto de partida ser oportunizada a conscientização e consciencialização dos conteúdos subjacentes aos nossos estados afetivos e emocionais”, para rever valores e crenças e consequentemente nos posicionarmos como pessoas ativas e responsáveis diante de nós e da vida.

Cada vez que procuramos novos formas de aprimoramento pessoal o mundo recebe e podemos melhorar nossa capacidade de nos relacionarmos conosco e com as demais pessoas. Tenho certeza que será útil. Aumentar a possibilidade de nos fazer feliz e florescer para a vida sempre nos proporcionará bem-estar e qualidade de vida.

  • Monica C. Ciongoli é Psicóloga e Coach

Um momento para recolher-se

Hoje, dia 21 de maio de 2019, chove aqui em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

Muitas pessoas podem encontrar neste tempo chuvoso e ameno uma oportunidade para debruçar-se sobre trabalhos manuais e trabalhos técnicos de ordem profissional. Usar a criatividade e a inteligência, na elaboração de algo prazeroso.

Contudo, outras tantas pessoas entendem que, apesar dos compromissos e agendas cheias, hoje o dia será de descanso.

A correria do dia a dia, o trânsito engarrafado, a possibilidade de acidente, hoje maior devido a condições climáticas, tudo contribui para a escolha de descansar.

Descansar como sinônimo de aquietar a mente, curtir um chimarrão, bebida típica do Rio Grande do Sul, ou até mesmo um café, além de tranquilizar a mente com técnicas de yoga, meditação e respiração.

Ao final, tanto quem busca se ocupar com trabalhos manuais e técnicos de qualquer ordem, quanto quem escolhe descansar, em comum, essas pessoas só buscam uma coisa: liberdade!

Liberdade para escolher, para viver, para desfrutar, cada um do seu jeito, a arte de ser feliz.

Escolhas, cada um faz as suas! A mim, cabe respeitar e entender que as escolhas individuais, produzem liberdades individuais, que no coletivo se potencializam em um momento mágico de transformação e reflexão em torno do que mais importa: ser feliz.

Mas quais são as dicas para se cultivar a felicidade? Bom, posso mencionar várias, mas me atenho às seguintes, pelas formas de crescimento que elas apresentam:

1 – Superar-se a cada dia, transformando as dificuldades em desafios a serem alcançados.

2 – Esquecer-se de tudo aquilo que te desmotiva de alguma forma, sejam esses pensamentos ou pessoas.

3 – Alimentar-se de esperança em todos os momentos da vida.

4 – Amar-se acima de tudo, compreendendo que o importante em primeiro lugar é você.

5 – Gratificar-se todos os dias pela vida que você tem, e que ainda está por vir. Presenteie-se com algo especial, um chocolate, uma roupa, um passeio, e se lembre sempre de que você é mais forte do que imagina.

Atitudes e pensamentos positivos que são reforçados todos os dias se transformam em hábitos e posteriormente se tornam comportamentos.
Nesse dia chuvoso aqui no sul, e talvez ensolarado aí, quais são as escolhas que te fazem feliz?

  • Claudia Luisa Brand é Psicóloga Clínica

Da ordem do óbvio

O mundo é redondo. Nenhuma possibilidade de ir “lá fora” quando se trata da nave mãe. Se andarmos em linha reta voltaremos ao lugar de partida, leve o tempo que levar. Olhos redondos, crânio, redondo. Face, redondas ou arredondadas.

O ventre da mãe que espera uma nova vida, também redondo. O entorno de um lago é redondo; redondas são as copas das árvores. Redondo o céu de anil visto lá de cima do avião. Redondo é o seio da mãe que derrama nutrição.

“Nas redondezas” significa perto de casa. Redonda é a roda das cirandas que celebram o encontro. Redonda é a praça; redondo o balão da criança que foi para o ar. Redondas são as naves das igrejas e os telhados dos castelos. Redondo o aquário onde o peixinho dourado vive. Redonda é a mesa onde todos se veem e podem se tocar com os olhares.

Redondos os pratos servidos à mesa. Redondo o tapete que quer aconchegar o ambiente. Redondas as rodas dos veículos que se deslocam levando coisas e gentes de um ponto a outro. Redonda, a conversa que termina em solução para todos.

Redondo o bolo de aniversário que celebra mais um ano de vida. Redondo, o olhar sistêmico que percebe o todo para compreender melhor. Redondas as formas da mulher amada a seduzir o amante num abraço redondo. Redondo o silêncio de paz depois do amor… Redondo o sol e todos os planetas que se equilibram no Universo em suas órbitas redondas.

Então, agora, me diga você: – onde há lugar para o áspero, partido, picado, cheio de arestas, dividido, distanciado e empobrecido de um mundo das facções, das opiniões que nos afastam, das línguas ferinas que chicoteiam, da indiferença que faz doer mais ainda a dor e que tornam o mundo um local pontiagudo e espinhoso impossível de se viver em ética fraternal?

Pois que o Amor também é redondo quando faz a volta de um coração a outro.

  • Alcione Albuquerque é Psicóloga Clínica

Buscamos o autogoverno

Somos duais, polarizados e naturalmente guiados pelo senso de opostos nem sempre complementares. Para apreciar o salgado, precisamos conhecer o doce. Para nos encantarmos com a noite e suas estrelas, precisamos do contraponto do dia. A beleza do sol mostra todo seu esplendor na relativa comparação com um charmoso dia de chuva. As delícias de uma vida adulta estão diretamente relacionadas às carências da infância e terceira idade – e vice-versa.

Gostaríamos muito de sermos ‘seres de luz’, porém é inegável a presença e força das sombras em cada um de nós. Ela se manifesta nos mínimos detalhes, através daqueles impulsos e inclinações da personalidade nem sempre bem-intencionados. Certa vez um sábio disse que erramos por ignorância e por maldade, e que felizmente na absoluta maioria dos casos é por força do primeiro motivo.

Cabe aqui o esforço de não apenas aprender com nosso lado obscuro, mas também governá-lo. Identificou alguma fragilidade? Vale o esforço de não se deixar governar por ela. Aplica-se nas coisas simples da vida: aquela vontade de comer um doce a mais (proibido pelo médico), a preguiça de acordar no horário todo dia, aquela vontade de desfilar suas conquistas diante daqueles que torciam contra ou não acreditavam no seu potencial… A lista é infindável…

Buscar o Autogoverno de impulsos e inclinações de nossa personalidade.

Topa o desafio?

Sandra Veroneze | Editora

É preciso prestar atenção em tudo?

No final de semana passado, estava eu na casa de uma amiga e, para nossa surpresa, pouco havia para o café da manhã. Então, ela pegou tapioca e disse que faria a mesma com ovo. Perguntou se eu comia aquilo. Diante da minha negativa, disse-me que era super fácil e passou a explicar-me. Neste exato momento, eu me desliguei. Isso mesmo, parei de prestar atenção e apenas concordei com a cabeça a cada passo que era dado.

Eu gosto de comer, não de cozinhar. Detesto cozinhar. Aliás, não cozinho. Por isso, quando alguém começa a me detalhar como fazer pratos, por mais simples que sejam, eu simplesmente escuto sem gravar nada do que a pessoa fala. Mas por que estou escrevendo essas bobices? Por que estou dando esse exemplo tosco?

Nos dias atuais, as situações que nos levam ao limite são cada vez maiores. Elas ocorrem na família, nos relacionamentos amorosos e de amizade e, principalmente, no trabalho. Às vezes (ou em muitas vezes), é preciso desligar-se. É difícil fazer isso, eu sei. Levei anos para estar apto. No entanto, quando você aprende, é algo fantástico. A pessoa que está incomodando você, enchendo seu saco ou o xingando fica falando, e você consegue apenas balançar a cabeça e desligar-se.

Não estou dizendo que devemos ser alienados do mundo. Mas você já se perguntou: é preciso prestar atenção em tudo? Quando estão a lhe contar uma tragédia horrível, a qual já é passado, o que você poderá fazer a respeito disso? Se seu chefe (ou líder em poucos casos) está esbravejando, e você precisa do emprego, é legal prestar atenção em tudo que é dito, sendo que você não poderá xingá-lo?

Claro, há situações e situações. O que quero dizer é que, quanto mais você conseguir desligar-se de situações ruins, melhor será seu estado de espírito. Trata-se de não absorver tudo que lhe é passado, de ser capaz de filtrar informações e ações, de saber quando ficar ou não ligado, de dar uma trégua ao cérebro que, depois, em casa, deixará ou não você dormir.

Portanto, já sabem: desliguem-se de vez em quando. Sua paz de espírito agradecerá por isso.

A propósito, você se desligou para ler este projeto de texto? Espero que não!

  • Márnei Consul é Professor e Diretor de Cultura

Quando mudar é imprescindível

Muito cedo, numa bela manhã de sol, ao acordar, ocorreu-me o pensamento: – Como será sua saúde nos próximos 10 anos? E por algum motivo acenderam¬-se algumas luzinhas internas e comecei a refletir sobre esta questão. Alguns dias se passaram e eu resolvi ir a fundo nos questionamentos internos. Foi quando comecei realmente a me dar conta de que tudo na minha vida praticamente dependia de minha saúde, no contexto atual de escolhas que havia feito anos anteriores.

Sou autônoma, por opção, trabalho no que amo, me programo no que posso, mas realmente tinha que mudar algumas coisas e o pensamento que tinha me dado um alerta naquela manhã fazia todo sentido. Na época eu estava com 109 quilos, com taxa de diabete muito elevada, dores nas articulações, coluna com protusão na lombar, indicação para cirurgia no joelho, tomando remédios para dor.

Neste momento, tomei consciência de que precisava de ajuda e fui buscar sessões de coaching para entender por que eu havia deixado as coisas chegarem naquele ponto, já que eu tinha um vasto conhecimento intelectual e trabalhava diariamente auxiliando pessoas. E durante o processo fui me dando conta do que eu havia permitido fazer comigo, ou seja, questões emocionais que eu achava que estavam resolvidas, como ser magoada demais, negligenciar uma alimentação mais saudável em função de algo mais rápido e mais prático, não ingerir água o suficiente para hidratar adequadamente o organismo, trabalhar muitas horas seguidas (em torno de 10 horas), sem me importar muito com lazer, tudo isso estava cobrando seu preço.

Ou seja, amava meu trabalho e tudo que o envolvia, porém esqueci de uma área muito importante da vida – a minha vida que envolvia tudo que não era trabalho. E tudo isso, aliado a alguns atos cometidos pelos pais e avós (na infância), que não fazem por mal (mas acaba prejudicando no futuro) foram se somando e o resultado acabou vindo.

Foram muitas tomadas de consciências e quando isso aconteceu começaram sucessivas “coincidências”. Fui a um médico para ver um sinal que começou a inflamar (cirurgia feita um ano e meio antes) e neste dia fui encaminhada para um cirurgião que era especialista em bariátrica. Achei aquilo muito incrível, pois eu não havia relatado nada a ninguém e muito menos para a médica que me direcionou ao especialista.

Quando procurei o cirurgião para resolver o problema do sinal, ele fez tudo que precisava em cinco minutos e após começamos a conversar sobre a bariátrica. Nesta conversa vieram outras constatações que me faziam acreditar que eu estava sendo realmente conduzida pela espiritualidade.

O Universo começou a me mostrar o que a sincronicidade faz em nossas vidas quando seguimos a intuição.

Foram cinco meses de intenso trabalho e mergulho no meu Eu. Precisei estar 30 quilos mais gorda para me dar conta de tantas coisas que fui deixando passar, não tendo um olhar mais atento para eu mesma. Em agosto de 2018 foi realizada a cirurgia bariátrica. Foi incrível, pois a conscientização me fez dizer não para muitos maus hábitos, não me negligenciar mais.

Anelise Lopes é Terapeuta, Coaching e Especialista em Gestão de Pessoas

Autossabotagem no trabalho

O que você quer ser quando crescer? Acho que você leva jeito para medicina, como seu pai! Como você é bom em matemática, deve fazer engenharia! Acho que não encontrei o trabalho certo ainda! O problema é que sempre tem um chefe que resolve atrapalhar meu trabalho, implicando comigo! Tem um colega que faz tudo o que eu faço, ele parece imitar meus passos!

Somos confrontados com o mundo do trabalho desde cedo, em função da importância do mesmo em nossa sociedade. Dessa forma desde crianças vamos explorando através das brincadeiras e jogos infantis por meio da imaginação, o que vamos ser quando crescermos. Primeiramente imitamos os pais ou pessoas próximas, já que estes são os exemplos que visualizamos de trabalho. No entanto, podemos ter sonhos grandiosos, assim como mudar de opinião milhares de vezes, até nossa escolha profissional.

O trabalho pode ser visto como uma maneira de ganhar a vida e sobreviver ou uma forma de crescimento e realização. Assim, qualquer que seja ele, enquanto escolha da pessoa ou não, esta vai interagir diretamente ou indiretamente com outros adultos, sejam eles chefes, colegas de trabalho, clientes. Independente da capacidade técnica e do prazer no trabalho, existe a possibilidade de surgirem conflitos no trabalho. Tal fato pode ter estar relacionado ao que aprendemos sobre trabalho e como lidar com os relacionamentos interpessoais.

Muitos de nós conhecemos pessoas brilhantes e que não se adaptam a um chefe ou não conseguem se entrosar com a equipe. A essa altura está claro que as experiências pessoais auxiliam na forma como nos relacionamos no trabalho. O chefe pode se tornar a imagem de um dos pais que tivemos mais dificuldade de interação na infância. O colega apresenta características semelhantes de um de nossos irmãos.

Nas relações no trabalho vivenciadas, as experiências já começam distorcidas pelas velhas relações anteriores que foram difíceis e mal resolvidas. As pessoas continuam agindo da mesma forma e trazendo para as relações de trabalho aquela forma de se relacionar em sua vida familiar.

Sim, levamos nossas experiências pessoais para o trabalho! Isso pode gerar tristeza, raiva, medo de assumir novos desafios, repetições de situações de trabalho em trabalho. É um sofrimento que parece se perpetuar. Trazer à consciência essas repetições e ver novas formas de elaborar tais questões representa uma excelente maneira de perceber e buscar novas formas de se relacionar. A psicoterapia auxiliar nesse processo de olhar para as histórias pessoais e entender as repetições no ambiente de trabalho, proporcionado ao sujeito uma compreensão mais saudável de sua forma de funcionar no mundo. Acredita-se, desse modo, que terapia, em muito possa contribuir com as novas ressignificações das relações pessoais do sujeito, possibilitando ao mesmo um novo olhar e posição frente aos conflitos relacionais que se apresentam.

Luciane Guisso, Giulianna Remor e Michele Puel são Psicólogas Clínicas

Conhecer-se para sobreviver

Em um mercado competitivo onde temos tantos desafios para vencer, seja por concorrência ou mera disputa por demanda de oferta de trabalho, fica mais evidente a necessidade das pessoas se conhecerem e saberem suas reais necessidades tanto de conhecimento técnico como de autoconhecimento.

E aí fica uma pergunta. O que pesa mais hoje nas relações pessoais de trabalho é o conhecimento técnico? Ou o autoconhecimento?

Parece simples à primeira vista, porém se formos pensar em alguns anos não muito distantes diriam os mais talentosos gurus da administração, como por exemplo Peter Drucker: “As pessoas são contratadas por suas habilidades e desligadas por seus comportamentos”. Isso responderia minha pergunta? Sim. E hoje? Hoje mais ainda. As ofertas são muitas e os escolhidos estão sendo aqueles que dominam a arte da boa convivência e do bem viver.

Aliar autoconhecimento ao conhecimento técnico é fundamental para mantermos a empregabilidade, porém não esqueçamos que a parte técnica partindo do pressuposto que somos seres inteligentes e que temos as mesmas oportunidades e condições. Todos somos capazes de aprender e buscar. Neste caso cabe a nós, interessados, buscarmos boas fontes de aprendizado, cujos conhecimentos técnicos tenham fontes seguras e fidedignas.

O Conhecer-se implica em um estudo com planejamento e acompanhamento. Podemos chamar de PDI (Plano de Desenvolvimento Individual), ou sobre você e suas reações para desnudar-se em busca de entendimento sobre suas reações e atitudes nas situações mais adversas de sua vida. Através de parte mais profunda, aquela que você ainda não conhece, mas sabe da sua existência, ou seja, sabe que está lá no seu inconsciente.

Tudo que você tem no consciente você sente, o medo, a dor, o calor, o amor, a saudade, enfim sentimentos estão em um nível que você explica com o consciente. Porém aquilo que você não conhece sobre você está mais interno. Talvez por influência de vivências de memórias esquecidas elas podem estar no inconsciente. Ainda assim existem ferramentas diversas que auxiliam no autoconhecimento, que são poderosas e tão reveladoras de sua personalidade quanto de seu perfil ainda adormecido. Os mecanismos utilizados para o autoconhecimento, são pessoais de cada indivíduo. São alguns exemplos os processos de Coaching, Psicoterapia, Yoga, Meditação etc.

Elizabete Borba Avancini é Administradora e Business Coaching

Texto e contexto

Ao se pensar sobre a essência de uma escritura, logo surgem especulações sobre suas fontes de inspiração. Quais os subsídios utilizados pela autoria para transgredir ideias na forma escrita. Num esboço assim, a cada página é possível entrever um novo viés de novidade. Tendo como ponto de partida uma vivência singular, algo mais se diz em vocabulário próprio.

Um texto narrativo indica suas origens através das palavras escolhidas para se contar. O discurso existencial se descreve ao preencher suas lacunas. Ao conhecer a luz do dia, essas ideias e sensações podem se emancipar de um jeito inédito.

É possível se reinventar na convivência com uma obra. Sua retórica, ao integrar texto e contexto, apresenta rotas até então desmerecidas a singularidade. As idas e vindas intelectivas do leitor ao personagem e do personagem ao leitor agregam saber, sabor e cor. Ao concluir-se uma redação ou uma leitura, pela contínua movimentação de seu meio, suas páginas reivindicam novos preenchimentos. Esse conteúdo, por seu inacabamento, favorece uma reapresentação do mundo.

Um sujeito assim constituído, ao reler determinadas páginas, pode avistar um estrangeiro em busca de tradução. A apreensão da escritura pela leitura agrega outros territórios, ampliando o conceito de realidade.

Em cada pessoa existe uma poética que aguarda seu momento de renascer. Ao resgatar sua circunstância de vida, é possível reagendar sua fonte de utopias. Um desses lugares onde o sonho e a vida lá fora se encontram para transcender impossibilidades.

Nesse sentido, a renovação da linguagem em cada sujeito denuncia um processo único. Com essa lógica de travessia a inspiração, quando não sufocada, aprecia traduzir seu dicionário de possíveis. Para acessar a situação pessoal de onde partiu, o entendimento de uma obra pode não bastar, é necessário compreendê-la em reciprocidade. Seus manuscritos reivindicam uma escuta visionária de seu dialeto.

A escrita e a leitura, enquanto ritual de autodescoberta, concede aos envolvidos uma emancipação dos seus horizontes existenciais. A literatura é um lugar para se integrar realidade e ficção, com isso convida a mergulhar numa pluralidade desconhecida de roteiros. Os relatos da singularidade apreciam a cumplicidade do leitor para reescrever sua história, concedendo um significado excepcional a este contar. Talvez ler e escrever rime com não morrer.

Hélio Strassburger é Filósofo Clínico