Amigos, amigos; negócios à parte?

Sempre me causou dúvidas a premissa de que amizade e negócios têm regras próprias e que não devem se misturar. Amigos, amigos, negócios à parte? O que isso significa, exatamente?

Na minha vida, sempre que ouvi a expressão ela estava relacionada a uma advertência de que não devemos ser condescendentes, benevolentes, pacientes e tantas outras “virtudes passivas” no trato com amigos e conhecidos, quando se tratava de obter lucro e fazer crescer nossas empresas. Oras, se em meu trabalho eu não for bacana com os meus amigos, com quem serei então?

Sempre optei em facilitar as coisas para pessoas próximas. Não seria essa colaboração a base para o que de fato é, em essência, uma parceria? Às vezes um pequeno desvio na regra (uma parcela a mais para pagar, um desconto um pouco maior do que a tabela apresenta, um horário diferenciado para atendimento, ou até mesmo a não cobrança) pode fazer toda diferença para o amigo. Para o negócio é um ganho? Nem sempre. Mas será que só se trata de finanças?

Precisamos repensar a maneira como fazemos negócios. Às vezes me parece, observando alguns mantras do mundo corporativo, que se trata de uma grande arena, somente com predadores, e que não importa se o oponente é um amigo, um conhecido, ou um completo estranho – mate, devore, acabe com ele! Não se estranha, portanto, aquilo que se convencionou chamar de ‘puxada de tapete’, muito embora possa causar revolta em quem sofre e uma certa satisfação em quem pratica. Há, inclusive, quem não se importe de se apropriar de clientes de parceiros… “É do jogo” – dizem.

Mas que jogo é este? E quem se propõe a jogá-lo?

É o jogo do sucesso a qualquer preço, dos fins que justificam os meios. Tem sua lógica? Tem. Teu seu valor? Provavelmente. É nele que você quer jogar? É uma escolha.

Pessoalmente, tenho observado nos últimos tempos uma nova postura emergir nos negócios, principalmente em setores que lidam com criatividade, inovação e com preocupação ambiental, social, cultural. Ancoradas na colaboração, essas empresas crescem a cada parceria, a cada união, compensando fragilidades umas das outras e se fortalecendo em seus aspectos positivos. O resultado? Mais e melhores soluções para o cliente, que é a fonte do lucro, por sua vez mais e melhor distribuído e portanto gerador de riqueza para mais negócios. No longo prazo, é minha aposta, é o tipo de negócio que sobreviverá.

Amigos, amigos, negócios à parte? Mesmo?

  • Sandra Veroneze é jornalista e filósofa clínica

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