Você é o que se pensa?

Temos uma imagem própria na mente quando olhamos no espelho pela manhã. A ideia de quem somos já está instalada e rodando, como um sistema operacional, um software que levamos algum tempo para instalar.
As definições destes papéis existenciais essenciais, onde moro, em que trabalho, com quem me relaciono, o que consumo, qual o meu lazer, entre diversas outras coisas, são como pequenas peças do grande quebra-cabeça da identidade pessoal, ou ainda algoritmos do software que determinamos.
Algumas destas peças são pré-definidas, não dependem de nós, coisas como idade, local de nascimento, filiação, mas muitas outras são resultados de escolhas pessoais. Se essas escolhas foram determinadas pelas peças iniciais, ou não, é uma das questões filosóficas mais antigas.
O que me pergunto é: e se essa imagem que temos não diz respeito ao que realmente somos, e sim um reflexo do que fomos há anos atrás, como um delay entre o que nos constituiu no passado e que imaginamos ser hoje? Ou ainda, se você hoje, ao se olhar no espelho, tivesse a imagem exata de quem é no momento presente, o quanto veria que suas escolhas pessoais já não dizem respeito à sua identidade?
Saramago no seu livro “A Caverna” traz essa questão ao personagem principal, quando ele se pergunta sobre o que deve insistir na sua vida e o que deve deixar ir embora. Essa pergunta, imagino eu, deve estar presente na vida de muitos, e é resultado do delay na diferença da imagem que temos.
Estamos vivendo tempos de mudanças, lidar com estas questões de identidade faz parte da aceleração atual, onde tudo é um constante aqui-agora-ao-mesmo-tempo, e nada está no mesmo lugar por muito tempo, muito menos as certezas, muito menos nossa imagem.
Luz Maria Guimarães |  Empresária e filósofa clínica

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