Acredite: todos sofremos

Talvez um dos conhecimentos mais sólidos que adquiri com as experiências da vida, um pouco de estudo e um mínimo de empatia é que todos sofremos. A dor é para todos e virou uma espécie de clichê dizer que o sofrimento é opcional e que importa mesmo o que fazemos com ele. A verdade é que, a menos que você seja altamente evoluído, não se engane: você vai sofrer e é bem provável que não tenha todas as ferramentas para lidar com a situação. Até pode disfarçar um pouco aqui, enganar bem a própria consciência um pouco lá, mas uma hora a conta chega.

Depois que entendi isso passei a tentar pegar leve com as pessoas. Sempre que me vejo diante de situações irritáveis ou que me causem algum dano envolvendo seres humanos, acesso minha nota mental e digo para mim mesma: essa pessoa também tem lá seus sofrimentos. A pessoa fala demais e irresponsavelmente? “Algo dói nesta pessoa”. Ela faz barulho enquanto come? “Essa pessoa também sofre”. Não entrega serviço no prazo previsto? “Hum, tem algum sofrimento na vida dessa pessoa”. A pessoa causou mágoa? “Também ela tem suas dores e dificuldades”. Os exemplos vão de situações mais corriqueiras até as mais complexas.
A regra também vale para aquelas situações em que você se sente mal e parece que todos estão bem e felizes – principalmente a julgar pelas fotografias nas mídias sociais. A pessoa está viajando o mundo? Hum, ela também tem lá seus sofrimentos. A pessoa está evoluindo na carreira não passo por passo, mas salto por salto? Em alguma medida, essa pessoa também dói. Relacionamento afetivo é fácil fácil para aquela outra pessoa? Ela deve ter lá suas dores também.

Entender que o outro sofre nos dá a dimensão da fragilidade humana, que nos inclui. Às vezes achamos bobagem o sofrimento do outro, porque é uma situação que já superamos. A verdade é que ao mesmo tempo que apontamos o dedo para outro com julgamento, damos autorização ao universo para alguém que já superou situações que estamos enfrentando nos aponte o dedo também. “Viver é cuspir pra cima”, alguém já disse.

Nem sempre consigo, é verdade. Não sou um ser humano altamente evoluído. E isso me faz lembrar uma história. Ela diz o seguinte: a um homem foi solicitado, por Deus, que todos os dias levantasse e empurrasse uma grande pedra perto de sua propriedade. Nos primeiros dias e semanas a ordem foi cumprida com maestria. Depois de um tempo, sem conseguir deslocar sequer um milímetro o rochedo, o homem desanimou e cessou a atividade. Quando morreu, na hora do acerto de contas, lhe foi perguntado o porquê do abandono de sua missão. E ele argumentou sobre o insucesso no deslocamento da pedra. E então Deus disse: não lhe foi solicitado que deslocasse a pedra; apenas que a empurrasse.

Talvez você pense que tudo isso seja sobre empatia, sobre capacidade de se colocar no lugar do outro e tentar entendê-lo, mas em alguma medida talvez seja também sobre amor próprio. Porque doer e sofrer não autoriza ninguém a irritar, incomodar ou, em algum nível mais profundo, machucar os outros. Quem utiliza a própria dor para ser sádico, abusivo, agressivo ou um sugador de energia, especialmente se utiliza a estratégia da vitimização, não constrói.

Parafraseando uma famosa saudação oriental, poderíamos dizer “A dor e o sofrimento que habitam em mim saúdam a dor e o sofrimento que habitam em você”. Portanto, camaradas, peguemos leve uns com os outros. Todos temos nossos próprios rochedos para empurrar, dia após dia. Talvez nem sempre você consiga, mas pelo menos tente.

É assim para mim. E para você?

Sandra Veroneze
Jornalista, escritora, editora e filósofa clínica