Tédio…

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Escolhi um trecho do livro Desassossego, de Fernando Pessoa, para darmos início ao bate-papo sobre o “Tédio”.
É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?”
Pensando assim, a cela pode ser algo ruim. Bem, então vamos separar nossos sentimentos e conhecer o nosso ser, adentrar a cela.
Como seres humanos em constante evolução e transformação, vamos experenciando as mudanças advindas de nossos mundos interno e externo. Nesta troca de experiências, há processos que, devido à época, ao momento, à cultura, à sociedade, entre outros, os requisitos do meio ambiente, interferem em nossas escolhas e vontades, direcionam o nosso desejo e as nossas buscas e por isso atropelamos o tempo… Tempo este que é igual para todos, porém percebido de formas diferentes por cada um, nascendo assim a ansiedade e a angústia de ter que lidar com controles, para se ter mais tempo, para fazer muitas coisas, trabalhar muito mais, adquirir bens, ganhar dinheiro, passando-se a acreditar que isto é normal, bom e saudável, esquecendo-se de si mesmo, sem ter tempo para fazer nada, esquecendo-se do ócio.
Essa rejeição de estar consigo mesmo nos faz ir à busca do preenchimento do tempo, então nos distanciamos do vazio interior, natural e saudável, para um bate-papo íntimo, uma tomada de consciência de si, do corpo e da alma.
Porém, quando de repente o tempo interno inicia a cobrança de um momento de reflexão, por não saber parar, nasce o tédio, algo que vem de dentro e tira a vontade, o desejo, o prazer, atirando a pessoa num vazio profundo e escuro, com o qual não se sabe lidar, pois sempre se fugiu deste contato com o self. Nasce então a angústia e ansiedade pelo desejo de controlar o tempo; nasce a depressão e tantas outras doenças.
O tédio, enquanto desesperança, falta de identidade, vazio por falta de preenchimento do tempo pode ser considerado não saudável, condição muito presente na atualidade.
O tempo livre para estar consigo mesmo, para reflexão, para lazer, para nada é saudável, não é tédio, é necessidade. Condição está muito esquecida, deixada de lado na atualidade.
Ana Maria Canzonieri, psicóloga

O tédio nosso de cada dia. Leia mais.