Sobre a importância da tristeza

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O mundo moderno exige padrões de comportamento que passam a ser normativos e que deixam de lado o sujeito e sua experiência. Não importa o que ou como sentir singularmente. O importante se torna como reagir levando em conta critério de eficiência dado por um outro, que é exterior à experiência do sujeito. Ouve-se regramentos, exigências quanto ao corpo, à produtividade, aos gostos, às posições políticas, e também sobre os afetos.

Hoje em dia é quase (im)possível ser triste, estar triste. Tristeza é um afeto que transmite a maneira como um sujeito expressa que perdeu algo importante para si. Perder faz parte da vida, da mesma forma que ver-se privado de algo desejado. Quando algo importante é perdido leva consigo o investimento que a pessoa fez nesse objeto, objeto que pode ser uma outra pessoa, um trabalho, um ideal, enfim, qualquer objeto que contém o amor investido. Assim, é esperado, por exemplo, que quando se perde uma oportunidade de trabalho ou o namorado, que haja tristeza. Só assim o sujeito vai passar a considerar o porquê este trabalho ou pessoa era tão importante, quais os atributos, as características que o interessavam e assim poder procurar outro trabalho ou outro namorado, ou seja, fazer uma nova escolha. A possibilidade de uma nova escolha pressupõe o reconhecimento da perda e a tristeza decorrente disso.

Por isso, tristeza não se confunde com depressão, apesar de haver tristeza na depressão. Tristeza é um afeto adequado frente à perda e um balizador da capacidade da pessoa de passar por uma situação de tristeza e ir em busca de outras saídas, de um novo objeto. Aí entra o tempo. Para tudo que é investimento é necessário um tempo: tempo de conhecer, tempo de sentir, de se entristecer, tempo de avaliar. Assim vai sendo construído um processo que implica o sujeito naquilo que ele está investindo, no objeto de seu amor. Neste ponto se separa o que é da ordem do desejo e a imposição de um padrão de reação. Cada um tem um tem sua forma de ser, de reagir, e tem seu tempo frente a novas escolhas.

Tristeza não é doença. É um afeto que permite uma avaliação do que foi perdido sem recriminações, idealizações e imperativos como “assim devia ser”, “o que mais teria de ser feito para não perder”, chegando ao incremento de culpabilidade, de exigência, de rigor para consigo mesmo que impede novas escolhas. Tristeza é também uma forma de se conhecer e encontrar saídas, como de forma tão brilhante retrata o filme Divertida Mente.

Bárbara Conte, psicóloga

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