Se é difícil, merece sua atenção?

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A vida é muito difícil, muito difícil… Oh! A Supervalorização do Difícil – I Tese

Na primeira quinzena de maio, ao abrir minha caixa de emails, qual não foi minha surpresa ao verificar uma mensagem da Sandra Veroneze, gestora de conteúdo do www.saber-se.com me convidando, ou melhor, me provocando, para contribuir com o site desenvolvendo uma reflexão sobre o tema “A supervalorização do difícil”.

Minha primeira reação foi, opa é fácil, fácil! Falar sobre o difícil? Moleza para mim! Comecei a esboçar um monte de coisas e, travei. Então, me pus a pensar, poxa, por que eu, logo eu, que não consigo ver dificuldades em nada ou quase nada, fui escolhida para falar sobre dificuldades? Está difícil!

O fato é que, por incrível que pareça, o fácil se tornou difícil… Tanto que o tema ficou cozinhando na minha cabeça até agora. Opa, ficou difícil? Ah! Então está bom, se é assim, se é difícil, então merece a minha atenção. Confesso que o processo não foi assim tão claro, direto e rápido, vejam que estamos em outubro, ou seja, cinco meses de ruminação e ainda estou na labuta. Será que agora sai? Vocês vão saber quando sair e, façam as contas das luas que se passaram.

Esta estória tem a ver com a minha estória que contarei na parte II deste texto! Mas estórias à parte…, comecei a perguntar para as pessoas sobre suas dificuldades ou facilidades e também a apurar minhas percepções sobre a dinâmica da vida e me pareceu que vivemos em um mundo onde as coisas que podem ser realizadas com facilidade, tranquilas e sem stress não têm valor. Para serem valorizadas, as coisas têm que ser realizadas com muito esforço. Percebe-se uma síndrome da potencialização da dificuldade. Tudo tem que ser difícil, suado, sacrificado. Faço uma pausa aqui para observar que tudo tem dois lados, que aqui chamarei de Tese e Antítese. Digamos que na tese, os aspectos da supervalorização do difícil se apresentam sob duas facetas, que chamaremos de Lado A e Lado B, já que tudo tem, no mínimo, dois lados.

No lado A estão aquelas pessoas onde tudo o que não é difícil realmente não tem graça. Se a conquista não teve um esforço hercúleo de realização, se não houve insistência e persistência para atingir, não tem valor. E isto se aplica a todas as áreas da vida: trabalho, relacionamentos, sonhos, etc… Já no lado B encontramos aquelas pessoas que se colocam como vítimas das dificuldades. Nada está bom para elas, nada dá certo, costumam se colocar como vítimas de si mesmas, do trabalho, da vida, das circunstâncias. Oh! A vida é muito difícil, o trabalho é sofrido, as dificuldades são enfatizadas. Até para ir a uma festa, curtir férias, ir ao cinema enfim, em tudo há dificuldades, ainda que façam algo prazeroso, fazem questão de mostrar ao outro que foi difícil. E, embora, realizem algo que parece difícil, com certa facilidade… fazem questão de enfatizar sua “dificuldade.”

Percebem que tanto para o Lado A quanto para o Lado B a coisa tem que ser difícil, dificílima, extremamente difícil, senão não tem valor? E, então em ambos os casos, cabe a sua supervalorização. Esta é a tese. Imagino que, se colocássemos indivíduos com essas características nos quadrantes do flow* poderíamos dizer que eles oscilariam entre a ansiedade e o tédio, não atingindo seu estado de fluxo, de satisfação com suas realizações, tal as dificuldades que se impõe. E, você, como se percebe diante desta reflexão? Supervaloriza o difícil? Se sim, que tal buscar mecanismos para tornar a vida mais leve? Buscar seu estado de flow e ter tempo para desfrutar as coisas boas da vida? Agora, se você, não se viu nestas condições, mas ainda assim, entende que valoriza o difícil que parece fácil, talvez você, assim como eu, se enquadre na antítese da supervalorização do difícil, mostrada na parte II desta estória!

*Flow – trata-se de um movimento que mobiliza desafios e habilidades de forma coordenada, que impulsiona as pessoas a se desenvolverem e sentirem satisfação no processo desenvolvido. (CSIKSZENTMIHALYI,1999).

 

Não sabendo que era impossível, foi lá e fez! A Supervalorização do Difícil – II Antítese

Eu, descobri, como vocês puderam ver pela minha dificuldade em dar início ao texto descrita na parte I, que sofro da Síndrome da Supervalorização do Difícil, só que não me enquadro na tese, por isto, apresento o outro lado dela – A Antítese. A tese é o lugar comum, onde se faz o fácil parecer difícil, onde, em todo caminho, há um obstáculo! A antítese é a busca pela realização do praticamente “impossível”, de fazer o difícil, como se fosse fácil. É quando os outros valorizam ou acham difícil aquilo que para você parece fácil, só que não! Esta é a minha história. Talvez por isto a dificuldade de escrever sobre a “Supervalorização do Difícil.”

A provocação de Sandra me remeteu aos tempos em que resolvi mais uma vez desencaixotar meu sonho de fazer mestrado. Aos olhos das poucas pessoas que comentei parecia difícil, na verdade, mais do que isto – acho que elas não queriam me dizer, mas achavam impossível! Começo então minha estória com a frase de Cocteau: “E, sem saber que era impossível, foi lá e fez”!

Este é o contraponto entre o fácil e o difícil! Já havia passado por outras experiências de realizar o que, aos olhos de alguns, era ‘loucura’ e, aos olhos de outros, ‘impossível.’ Só você para fazer isto – diziam! O mestrado foi mais uma das loucas experiências do “por não saber que era impossível, foi lá e fez.” E fez quase sem perceber o que estava fazendo. Foi assim… por querer muito, apenas pensava, só mais esta vez, e, um passo de cada vez! Da descoberta do Edital do Mestrado até o resultado final foi uma loucura de dificuldades fáceis sem tamanho! Do início do curso à banca de defesa a mesma coisa! Tudo começou quando, um dia, meio que sem querer, como coisa do destino, caiu em minhas mãos um Edital para um mestrado na minha área. Faltavam 15 dias para encerrar o prazo de apresentação do Projeto, resolvi encarar. Era difícil? Sim, bastante, mas não impossível, eu pensava! Os rituais e passos normais de conhecer o curso, os professores, ser conhecida, foram pulados, senão seria fácil. Assim, depois que identifiquei o Edital, passei para a etapa de elaborar o Projeto. E, a pergunta que fazia a mim mesma era… E se? E se o projeto for aprovado? Bom, se o projeto for aprovado… vou fazer as provas. E se você passar nas provas? Bom, se eu passar, vou para a arguição do projeto. Mas… E se você passar na arguição? E se eu passar? Bom se passar, vou sair de férias e, quando voltar resolvo isto. E assim foi, um passo de cada vez.

E aí, veio o resultado final. “Aprovado.” Hum… e agora? A saga do fácil/difícil/impossível continuou, expandiu… complicou aí o fácil ficou difícil de verdade, o desafio aumentou, aí ficou legal, teria sacrifício, seria heroína se concluísse, mostraria que a vida não é para os fracos. Por não saber que era impossível, foi lá e fez! Só que não! Precisava da liberação da empresa pois trabalhava 40 horas por semana em uma empresa privada! Até aí, beleza, consegui, só que teria que pagar as horas com trabalhos extras (10 horas por semana). Fácil, fácil, não sei como, mas, para a wonder woman, nada era impossível!

Aí as coisas começaram a ficar um pouco, hummm, digamos, complicadas… Oba! Eu morava em Goiânia (GO) e o curso era em São Carlos (SP). Teria que viajar cerca de 800 quilômetros toda semana, dependeria de ônibus e outros transportes, que não são precisos, nem confiáveis; o medo vinha e as dificuldades iam aparecendo. Um lado meu fazia a pergunta que não queria calar, como vai fazer para frequentar as aulas? O outro respondia: Desistir? Jamais, é fácil, vá lá e faça! Então, veio a etapa realmente difícil, mas prazerosa, dizia eu! Viajar 12 horas (uma noite inteira), de ônibus, chegar de manhã em São Carlos, tomar um banho, um café, assistir a oito horas de aula (um dia inteiro), sair da aula correndo às 18 horas, ir para a rodoviária, pegar o ônibus de volta às 19 horas, chegar em casa às 6h30min do dia seguinte, correr para casa, tomar um banho, café, entrar no trabalho às oito horas e trabalhar até as 18 horas. Duas noites mal dormidas em ônibus, aulas que exigiam atenção plena e trabalhos, leituras de textos, bláblá-blá, difícil! Fácil, fácil né? (Ah se fosse eu não teria feito, dizem alguns.)

Esta rotina durou 32 semanas, 64 viagens em um ano, no qual cumpri religiosamente com as obrigações do trabalho, as entregas do mestrado, tirei nota 10 em todas as disciplinas (nada mais que obrigação, pensava eu), entreguei a dissertação e defendi com louvor… Ah, mas só isso? Fácil. Quanto à antítese do difícil, às vezes, por modéstia, dizemos “não foi difícil”, mesmo que a exaustão nos tenha dominado, e este foi o meu caso, ou por não nos acharmos merecedores de tantas coisas boas ou algo assim, ou ainda, para não assumir ao outro que aquilo, pelo menos para mim, antes de ser o sacrifício que parecia ao outro, era um presente, uma dádiva e me fazia feliz. Não podia admitir assim, explicitamente, que fazer tal coisa me colocava, literalmente, em estado de flow (ponto onde a vida flui com prazer, onde o difícil fica fácil e prazeroso).

As consequências disso foi que depois que passei e ao longo da trajetória do curso descobri que minha busca não era normal, ou seja, pouca gente atravessa esse ponto de simples mortal, para aprendiz na academia, não dormindo, trabalhando, não é trabalhando, é trabalhando muito, pois no meu trabalho e no meio onde vivo isso era babaquice, mestrado, bah, bobagem mestrado, “só para aparecer”. Pois é, e assim se foram sete anos dessa estória, um ciclo e aí descubro que com a desculpa de gostar de desafios, sofro da síndrome da antítese da supervalorização do difícil, onde fazer sacrifícios exagerados parece fácil, onde admitir que é difícil é proibido.

Não que não mereça ser feito, nem que não mereça o sacrifício, apenas merece que admitamos, sim, é difícil! Estou em tratamento, seguindo em altos e baixos, tentando me vencer… um dia de cada vez! Tentando entender que sou merecedora do que vem fácil, mas ainda não convenci, nem me venci. Ao finalizar esta estória, tomo consciência de que atravessei mais um portal da academia, sou doutora, e segui a mesma toada, por mais quatro anos. Neste período muitas coisas mudaram na minha vida. O emprego, a cidade onde morava, as visões de mundo, os amigos. Mas a valorização do difícil, essa é só eu descuidar que vem e domina.

A provocação para você que leu estas reflexões é, em qual destes perfis você se viu? Se se encontrou em algum deles, lhe digo… Neste mundo de tempos líquidos, a vida escorre pelas mãos, escapa por entre os dedos, como a água que precisa seguir seu curso, por isto, procure se observar e se cuidar destes males do mundo moderno, o que é bom, pode vir fácil. Se veio fácil, é porque somos merecedores. Simples assim…

Cassia Corsatto, coaching executiva e empresarial

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