Online, imaginária, percebida, suposta… De quantas realidades se faz o Eu?

Sandra Veroneze
sandra.veroneze@saber-se.com

Para a criança que senta no chão da sala e passa horas ‘conversando sozinha’, seus amigos não são imaginários. São sua realidade.

Para o adolescente que passa tardes em frente ao vídeo-game, não se trata de uma realidade paralela. É seu mundo de fato aquele universo onde pode ser herói, bandido ou um talentoso jogador de futebol.

Quando postamos fotos felizes nas mídias sociais, independente de verossimilhança, de alguma forma não é somente ficção… Poderíamos falar de algum tipo específico de realidade, onde online e off-line se somam – ou se anulam?

E o que dizer do marido que sofre por desconfiar, sem dispor de qualquer prova, que está sendo traído? Sua dor não é real?

Online, imaginária, percebida, suposta… De quantas realidades se faz o Eu? Podemos, por exemplo, falar de uma realidade mental, outra realidade emocional, e ainda uma realidade física e outra espiritual? Ou então uma realidade interna e outra externa?

O quanto é real a coceira que o paciente sente na perna amputada? O quanto é verdadeira a lágrima que deixo correr depois de assistir a alguma cena triste no filme do final de semana? O quanto é real o aceleramento cardíaco que tenho quando leio um livro de terror ou com altos índices de suspense?

Como eu significo cada evento, por mais ilusório, imaginário ou ficcional que seja, de alguma forma tem potencial para refletir e/ou produzir algo que poderíamos chamar de ‘realidade concreta’. Schopenhauer, que cunhou a teoria do mundo como vontade e representação, já ensinou algo mais ou menos assim: ‘como o mundo me parece, assim ele o é’.

Tecnologia como passaporte

Se antes dependíamos de imaginação para criar outros mundos à nossa imagem e semelhança, hoje a tecnologia presta um imenso auxílio. Com alguns poucos equipamentos conseguimos criar personagens, identidades e universos com suas próprias regras, onde limitações são secundárias e detemos todos os poderes de decisão, atitude e ação. A conexão, não exatamente com quem somos, mas como gostaríamos de ser ou de sermos percebidos, está a alguns cliques de distância.

Podemos negar os atrativos da vida virtual? Segundo a psicóloga Rose Silva, muitas vezes o mundo virtual pode ser bem mais interessante do que a vida que chamamos de real. Fixar-se neste mundo é muito fácil e rápido, além de gerar prazer, alívio e fuga imediatos para muitas chateações e incômodos da vida. Veja reflexão completa aqui.

Para a psicóloga Natália Brum Vinhas, é impossível dizer que a tecnologia não veio para nos ajudar. “Basta um clique para conversar, um clique para comprar; de qualquer lugar, a tecnologia conecta a gente com o mundo”. Veja reflexão completa aqui.

O psicólogo Décio Déo pergunta: “O que é real, se não estar conectado o tempo todo? A sensação é de que não há mais o que realizar na vida real. Um simples caminhar pelo quarteirão em “modo off-line” pode ser arriscado; afinal, em qualquer esquina posso encontrar aquele velho e assustador desconhecido: Eu.”. Leia reflexão completa aqui.

Sinais de alerta

Segundo a psicóloga Maura Castello Bernauer, na hipermodernidade ou pós-modernidade as Novas Tecnologias da Informação (NTIs) operam no núcleo da subjetividade humana, no seio das nossas memórias, inteligência, sensibilidade e afetos, em que estão imersos novos tipos de relações e modos de existir. “A cibercultura, hoje desenvolvida em rede, envolve usuários numa conexão generalizada, conectada em tempo integral, modificando a subjetividade.” Veja reflexão completa aqui.

Inúmeros problemas podem advir de uma vida high tech. A psicóloga Patrícia Gimael pergunta: “Quem ainda faz uma visita a um amigo? Dificilmente se tem tempo para fazer visitas e verdadeiramente conversar, falar da vida, das nossas escolhas, trocar ideias, falar de si e ouvir o outro”. Veja reflexão completa aqui.

A psicóloga Karen Torquato Bronzate atenta para a possibilidade de dependência. “A internet, redes sociais e jogos eletrônicos são utilizados como ferramenta para facilitar a comunicação, aliviar a tensão, distração e prazer. Mas quando o usuário perde o controle (sem perceber), promove a facilitação para a dependência.” Veja reflexão completa aqui.

A psicóloga Ana Cristina Trazzi atenta  para outro problema: a idealização. “Essa realidade fotografada e publicada para quem quiser ver, ler ou assistir, nem sempre representa o que de fato está acontecendo. O indivíduo atento a rede social vê seu amigo “feliz” viajando. Não conhece a realidade, portanto a idealiza.”. Veja reflexão completa aqui.

A psicóloga Regiane Hatchwell faz uma provocação: tudo o que temos hoje, seja conhecimento ou inovações tecnológicas, foi produzido por indivíduos que investiram tempo em criar e não apenas na mera reprodução. Se não for possível criar, reinvente, mas faça algo novo ou diferente. Veja reflexão completa aqui.

 

A Máquina auxiliando o Homem

Pode haver algo de positivo nisso tudo. O psicólogo Djonny vivenciou uma situação que demonstra que sim. Ele conversava via aplicativo onde a mensagem é digitada ou gravada, levando um tempo até o interlocutor ler/ouvir. Então sugeriu utilizar outro aplicativo, que proporcionasse conversa ao vivo. Mas obteve uma negativa. “A pessoa falou que era melhor no aplicativo que já estávamos conversando pois ajudava ele a pensar melhor no que falar, dava mais tempo para ele elaborar respostas e conseguiria responder na hora que pudesse”. Veja reflexão completa aqui.

Já psicóloga Lydia Janaudis convida a dar um passo à frente: “Dependência virtual é um assunto polêmico e delicado. Dependência da vida real, qualidade de vida, sabores, cores, aromas, natureza, esta nunca irá desaparecer.”. Veja reflexão completa aqui.

A psicóloga Alane Viñas Nardi, corrobora: não resta dúvida de que tecnologia e internet passaram a ser fundamentais no nosso dia-a-dia, mas ela deve ser meio e não um fim em si. “A vida acontece com muito mais intensidade e possibilidades quando estamos nela de corpo presente”, mesmo que nem sempre seja totalmente agradável. Veja reflexão completa aqui.

Para a psicóloga Claudia Luisa Brand, o limite imposto por situações que não podemos controlar é potencializador. Na vida virtual, esse caminho não acontece, a frustração não acontece, tudo é imediato e instantâneo. “ A frustração é determinante para que se possa ter consciência de que aquilo que eu quero/que eu posso é muito diferente, e depende do comprometimento e planejamento”, conclui. Veja reflexão completa aqui.

E você?

E você… De quantas realidades se faz o seu Eu? E qual a mais próxima ou fiel à sua essência? Qual que mais faz bem? De qual você não abre mão?

 

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