Ócio sem culpa

Sandra Veroneze
sandra.veroneze@saber-se.com

Sua noite de domingo é a nova manhã de segunda-feira, reservada para fazer o planejamento da agenda da semana? A noção de dentro/fora do horário de expediente está se diluindo? As facilidades eletrônicas deixam você a qualquer momento disponível para demandas do trabalho?

Com alguma frequência você se percebe angustiado porque deveria ter mais tempo para atividades que lhe trazem prazer, como praticar esporte, ficar com a família, estar mais em contato com a natureza, dedicar-se a um hobby e encontrar com os amigos?

E quando você está em seu momento de lazer, no cinema, lendo um livro, levando o cachorro para passear ou qualquer outra atividade, sente-se desconfortável e pensa que deveria estar utilizando melhor o tempo com algo ‘útil’?

Pare tudo, agora.

Se você respondeu positivamente a pelo menos uma dessas perguntas, muito provavelmente o trabalho e os compromissos vêm ocupando cada vez mais tempo de sua vida diária. Talvez você até esteja um pouco decepcionado em perceber que o tanto de estratégias e ferramentas de produtividade que utiliza para fazer mais e fazer melhor não tem contribuído muito para gerar mais tempo livre na sua agenda. Talvez você já esteja, inclusive, sentindo o desgaste mental e físico de tantos afazeres e começa a se questionar se tanto esforço vale a pena.

Muitas vezes vivemos uma realidade meramente complexa e não necessariamente sofisticada – a primeira compreendida como uma teia emaranhada e de difícil solução e a segunda como uma teia artisticamente tecida e perfeitamente harmônica. Nesses casos, a solução está em seu oposto: a simplicidade.

Se o copo está cheio, esvazie-o

O grego Platão chamou de Ócio Divino, o italiano Domenico de Masi chamou de Ócio Criativo e mais recentemente o brasileiro Marcelo Bohrer chamou de Nadismo – cada um com teoria e prática perfeitamente contextualizados nas possibilidades e valores de seu tempo.

Você consegue ficar um tempo sem fazer nada, de forma que seja regenerador de seu ânimo e disposição?
No mundo em que vivemos, segundo a psicóloga Ana Paula Hermoso Lopes, permitir-se um momento de ócio é um ato de rebeldia. “É uma revolução interna. Permitir-se deitar na grama de um parque num domingo e ficar olhando para as nuvens para ver que formato têm é quase uma ofensa”. Veja mais aqui.

O psicólogo Eduardo Antonio Medeiros Souza empreendeu essa revolução interna. “Hoje me permito não ser tão escravo da obsessiva necessidade de estar ocupado com algo útil, que de tão utilizado se torna inútil, efêmero, supérfluo – coisas das quais vou me desapegando”, afirma. Veja a reflexão completa aqui.

A psicóloga Carolina Mirabeli destaca os benefícios da prática consciente do ócio: a realização pessoal e o sentimento de alegria aumentam a criatividade e o potencial imaginativo, fazendo com que o indivíduo pense diferente, crie novas possibilidades, desenvolva um produto ou uma ideia nova e no contato com o não fazer nada as próprias competências se fortalecem, outras são adquiridas e a gente cresce. Veja mais aqui.

A psicóloga Priscila Junqueira reforça o coro dos inúmeros benefícios do ócio: aproximação da realidade subjetiva, qualidade de vida, menos rotina, criatividade e evolução emocional. Veja mais aqui.

Segundo a psicóloga Tatiana Perez, o ócio é fundamental para o autoconhecimento. “Quando não fazemos nada, nossa percepção de nós mesmos emerge na superfície. É enquanto não fazemos nada que percebemos o quanto estamos satisfeitos com as nossas vidas (ou não). Veja mais aqui.

Por outro lado, a psicóloga Daniele Passos atenta para os perigos de não praticar o ócio criativo: esgotamento mental em virtude do excesso de trabalho, sentimento de vazio emocional, falta de sentido da vida, crises de ansiedade, perda da qualidade do sono, sentimentos de angústia e ideias depressivas. Veja mais aqui.

E como produzir esse ócio que significa vazio gerador?

Como cada pessoa vai chegar no seu ócio é uma viagem particular, singular, segundo a filósofa clínica Luz Maria Guimarães, e tão importante quanto o que fazer está o como fazer. “Se você faz sempre os mesmos trajetos, conversa com as mesmas pessoas, e faz os mesmos programas de lazer, pode estar reduzindo o seu mundo, seus pensamentos. Agora, você pode fazer exatamente essas mesmas coisas, e estar com uma série de pensamentos totalmente diversa do mundo exterior, visitando outras paisagens, ou simplesmente em um estado meditativo equivalente do ócio, e pronto para novas percepções sobre as mesmas coisas”, afirma. Veja mais aqui.

O psicólogo Carlos Donizetti de Souza Júnior também defende a livre escolha na hora de definir o que é ócio criativo para cada indivíduo. Sua dica é: ocupe-se de algo desejado. “Desses momentos poderão surgir as maiores criações, como uma bela música, um novo jeito de brincar, uma nova forma de ser ou mesmo se reinventar. Veja mais aqui.

 

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