O tédio nosso de cada dia

Sandra Veroneze
sandra.veroneze@saber-se.com

O mundo nem sempre é um lugar cheio de aventuras, possibilidades, cores e sabores. Entre um grande acontecimento e outro, não raras vezes – e muitas delas com períodos até prolongados – prepondera o tédio.

Tédio é conhecer a preguiça e o desinteresse em todas as suas nuances. Tédio é dar um tempo para a existência cheia de sentido, simbolismo e significado… O tédio não se importa com nada disso… Ele é o próprio marasmo da rotina, dos dias que se arrastam, dos ciclos previsíveis… A imagem que melhor lhe expressa talvez seja a dos ponteiros de um relógio, movimentando-se inexoráveis junto de um sonoro e cadenciado tic – tac – tic – tac.

O tédio tem cara de ‘já vi esse filme’. Diante de novas situações, é como se já soubéssemos de antemão tudo que ela pode nos proporcionar – e não é exatamente algo que empolgue, entusiasme…

O tédio sempre existiu

A psicóloga Haidy Segovia lembra de uma música dos anos 80 que fez muito sucesso na voz do Biquíni Cavadão. Seus versos diziam: “Sentado no meu quarto / O tempo voa / Lá fora a vida passa / E eu aqui à toa / Eu já tentei de tudo / Mas não tenho remédio / Pra livrar-me deste tédio”… Naquela época, afirma ela, todos sabíamos o que era tédio, sem computador, sem internet, sem celular e simplesmente se tinha mais tempo para pensar em si e na vida. “Passados mais de 30 anos, hoje sentimos o tédio de forma diferente”, afirma. Leia reflexão completa aqui.

Ele simplesmente aparece

Vivemos num mundo de tantos estímulos, informações, coisas a fazer, numa grande correria, com a impressão de que “o tempo voa” e nesse emaranhado de coisas algumas vezes não podemos fazer o que queremos, ou temos de fazer o que não queremos ou mesmo não temos o que fazer (como isso pode ser possível?). A afirmação é da psicóloga Dione Marschner Miron. “Quando nos damos conta, estamos nos sentindo entediados, causando uma sensação de estranhamento. Muitas vezes não se é capaz de apontar razão ou causa. Simplesmente vem…”. Veja reflexão completa aqui.

Fugindo de si próprio?

Segundo a psicóloga Ana Maria Canzonieri, quando se trata de tédio é importante considerar o fator ‘tempo’. Segundo ela, o tempo é igual para todos, porém percebido de formas diferentes por cada um, nascendo assim a ansiedade e a angústia de ter que lidar com controles para fazer muitas coisas, trabalhar muito mais, adquirir bens, ganhar dinheiro, passando-se a acreditar que isto é normal, bom e saudável, esquecendo-se de si mesmo, sem ter tempo para fazer nada, esquecendo-se do ócio. “Essa rejeição de estar consigo mesmo nos faz ir à busca do preenchimento do tempo, então nos distanciamos do vazio interior, natural e saudável, para um bate-papo íntimo, uma tomada de consciência de si, do corpo e da alma”, afirma.  Veja reflexão completa aqui.

O tédio indica que algo não vai bem

Segundo o psicólogo Daniel Sá, de acordo com uma pesquisa realizada na Universidade de Michigan, quando estamos entediados as áreas do cérebro ligadas à autoestima, visão e linguagem se desconectam, tirando o foco e fazendo a pessoa realizar comportamentos sem pensar. “O tédio funciona como um indicador de que algo não anda como deveria; por isso, serve como um impulsionador para buscar por uma atividade”, afirma. Porém, segundo o psicólogo, a pessoa pode ficar entediada mesmo buscando novas experiências ou aprendizados. “Uma vida estável não garante emoção.” Veja reflexão completa aqui.

O tédio e o ócio

Para contrapor-se ao tédio a psicóloga Ida Maria Mello Schivitz indica o ócio. “O ócio criativo não significa preguiça ou desinteresse, mas um estado de graça, comum a várias atividades intelectuais, que se hibridam e se confundem dando origem ao ato e ao produto criativo. Seria a valorização e o enriquecimento do tempo livre, numa distribuição consciente do grande valor-tempo, nas necessidades básicas que são introspecção (pensar-se, saber-se), convívio social, amizades, amor, execução de atividades lúdicas, etc”, afirma. Veja reflexão completa aqui.

E com você, como é?

O tédio faz parte da vida. Como lidar com ele é a questão central. Como praticamente tudo, não existem regras, muito embora, de acordo com a perspectiva pessoal diante da vida, algumas atitudes podem ser mais positivas que outras… Uma possibilidade é: tenha-o como mestre para o autoconhecimento. Com que frequência o tédio lhe assalta? O que você costuma sentir, pensar e viver nestas situações? Que gatilhos o tiram do stress? Estando em momento de tédio, o que você dirá para a próxima oportunidade de viver algum acontecimento cheio de aventura, possibilidades, cores e sabores?

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