Defeito. Será mesmo?

Sandra Veroneze
sandra.veroneze@saber-se.com

Parece existir no ser humano um pendor natural para o belo. O olhar se sente atraído para situações e pessoas que de alguma forma manifestam equilíbrio e simetria. Grandes pensadores, ao longo da história, debruçaram-se sobre o assunto e teceram curiosas teorias acerca destes padrões e sobre o quanto eles expressam expansão, prosperidade e ordem, como se a própria evolução estivesse alicerçada nestas virtudes.

Muito embora nossa mente dual tenda a analisar tudo por oposição e complementaridade (quente e frio, bom e ruim, agradável ou não) num processo excludente (ou um ou outro) a natureza é ampla, total, e concebe a vida na fórmula um + outro. Escuro e claro, em retração ou expansão e diversas outras possibilidades de ‘estados’ e ‘movimentos’ da vida funcionam como dois aspectos de uma mesma realidade, de uma mesma natureza.

Isso significa que até mesmo na energia caótica, em desalinho, pode haver algo de bom? A crença popular de que aprendemos mais com os erros do que com os acertos é apenas exemplo disso, apesar de toda ‘ditadura’ de alta performance que vivemos hoje. Quem sabe chegou a hora de lançar uma nova perspectiva sobre aquilo que chamamos de sombra, os nossos ‘defeitos’?

Tema complicado

É interessante observar, segundo a psicóloga Greice Quelle C. da Costa, que quando o assunto é ‘defeitos’ as pessoas costumam se retrair. “Embora saibam que os têm, muitas pessoas não gostam de expô-los e prefeririam esconder até de si mesmos. “Outras simplesmente não sabem citar mais do que um, talvez para evitar uma dolorosa autoanálise”. Veja reflexão completa aqui.

O psicólogo Valberto Gama atenta para outro detalhe curioso: “Algumas pessoas acham que defeito é uma característica que só existe no outro, mas nunca o encontra em si mesmas”. E por que é tão difícil? “Talvez porque não tenha procurado ou nem olhado para dentro si. Muitos ignoram essa possibilidade, mesmo quando são apontados por alguém”, afirma. Veja reflexão completa aqui.

Nesse sentido, a psicóloga Maria Cristina Lopes sugere carinho e afeto consigo próprio. “Veja, você não é perfeito. E tudo bem! Você ainda é maravilhoso do seu jeito! Quando deixamos essa necessidade de sermos perfeitos para trás podemos nos ver de forma mais realista. Isto significa abraçar nossas qualidades e características e aceitar nossos defeitos! Quando isso acontece é como recitar um poema. Nunca é perfeito, mas é sempre lindo.” Veja reflexão completa aqui.

Talita Mazziotti Bulgacov, psicóloga, sugere que cada um aceite sua sobra e deixe o orgulho, a negação ou a defesa de lado. “Passe a observar os comportamentos e de que forma eles podem ser utilizados como oportunidade para crescimento pessoal, profissional, relacional”. Veja reflexão completa aqui.

A psicóloga Renata Trigueirinho Alarcon é otimista. “Quando vivíamos na pré-história nos agrupávamos em clãs e ser aceito era uma questão de sobrevivência. Assim, ter deficiências físicas ou mentais poderia fazer com que fôssemos excluídos e a nossa vida corria riscos”, afirma. Mas hoje a situação é diferente. “Nós evoluímos e hoje os grupos são diversos e ser rejeitado por um grupo não nos oferece risco de vida e também não nos impede de sermos aceitos por outro. Temos uma diversidade de grupos”, afirma. Veja reflexão completa aqui.

A psicóloga Ana Lúcia Pereira reitera importância do otimismo. “Todos nós, em determinadas circunstâncias, tendemos ao pessimismo. Catastrofizar é acreditar no pior, no desastre, no perigo iminente, mesmo na ausência de evidências que apontem para esse desfecho. Trata-se da profecia autorrealizável, que é uma previsão sobre o futuro que influencia o comportamento da pessoa de tal forma que acaba se cumprindo”. Em outras palavras: profecias catastróficas conduzem a resultados catastróficos. Leia mais aqui.

Adormecido, latente ou desenvolvido

Kintsugi é uma técnica japonesa para reparação de cerâmicas (foto). Na prática, consiste em utilizar uma mistura de laca e ouro para consertar, ‘colar’, peças quebradas. O simbolismo do ato abrange a compreensão sobre transitoriedade e a impermanência. Em outras palavras, traduz a ‘beleza da imperfeição’ e as peças com essa arte, via de regra, são mais valorizadas e caras que as originais.

Será que poderíamos fazer algo parecido com as fissuras, com os estragos, com os defeitos de nossa personalidade? Um antigo provérbio filosófico diz que o ser humano guarda em si todas as virtudes, em estado adormecido, latente ou desenvolvido. Por essa perspectiva, não seria o defeito apenas uma virtude que ainda não atingiu seu inteiro potencial na polaridade positiva?

Vejamos… Poderia a preguiça evoluir para a disciplina? Poderia a gula evoluir para a moderação no alimentar-se? Poderia a indiferença evoluir para o importar-se?

Essas questões são daquela espécie que cada um só pode responder para si próprio.

Como é para você?

 

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