De tristezas também se faz a vida

Sandra Veroneze
sandra.veroneze@saber-se.com

 

Tem como ser feliz diante da perda de um filho, de uma demissão no emprego, de um relacionamento agressivo? Tem como ser feliz com um mundo tão confuso e às vezes também injusto? Existe maneira de manter-se alegre quando os sonhos parecem não se realizar nunca e quando nem o time de futebol dá motivos para vibrar?

Tristeza não escolhe idade, classe social, nível de escolaridade ou conta bancária. Tristeza nem sempre manda avisar… Às vezes chega rapidamente; em outras, quando percebemos, já está instalada, desbotando a vida com suas tintas aquareladas.

Motivos para tristeza temos muitos e cada um a sente de um jeito. Há quem fique na cama chorando por horas a fio; há quem se prostre no sofá no final de semana inteiro, fazendo maratona de séries sem prestar atenção na trama; há quem se arrume e vague pela noite, de bar em bar, procurando distração… Há também aqueles que mergulham no trabalho, evitando, desviando, muitas vezes negligenciando…

Há aqueles que, quanto mais tristes, mais felicidade aparentam. E talvez isso não seja de todo ruim. ‘Procure vibrar o estado emocional que você deseja e quem sabe, em breve, assim será?’, propõem alguns especialistas, que também se preocupam com a vida social do triste, uma vez que nem todos aguentam, por muito tempo, baixas vibrações apesar de todo colo, carinho e conselhos ofertados.

Mas tristeza tem a ver também com resignação, com resiliência… O triste é, sobretudo, um forte, nesse mundo em que parece haver a ditadura da felicidade e onde artificialmente podemos produzir todo e qualquer estado de ânimo. Se é de bom tom, esperado e incentivado sorrir, estar em alto astral, e o triste se permite olhar, analisar, investigar seu sentimento, ele está fazendo bom uso de sua tristeza e talvez este seja o segredo.

A tristeza, em si, carrega muitos potenciais, principalmente o de autoconhecimento. Tristeza convida ao recolhimento, esse artigo de luxo nos dias atuais, onde somos a todo instante demandados, encontrados… A tristeza, apesar de parecer tão apática, pode ser proativa, pode convidar seu hospedeiro ao protagonismo. Tristeza pode ser dicionário para compreensão de como o mundo me parece, do que acho de mim mesmo, de como as emoções me afetam.

Tristeza pode, portanto, ser caminho para consciência e criatividade. Quem nunca ouviu falar que amor feliz não faz boa literatura? Tristeza, que é diferente de depressão, traz para nossas vidas a sabedoria do bambu, que diante das dificuldades verga, mas não quebra. Ele aceita a pressão do vento, da chuva, e ao não resistir, permite que a chuva e o vento continuem seu caminho. Tristeza vem e tristeza vai.

Para refletir:

As pessoas tentam evitar as emoções que causam sofrimento. Sentir dói. A tristeza, muitas vezes, é confundida com os estados depressivos, levando à utilização de medicamentos para amenizá-la.” Eliane Tonello, psicóloga. Leia mais: Tristeza, a difícil dor de sentir

 

Tristeza não é doença. É um afeto que permite uma avaliação do que foi perdido sem recriminações, idealizações e imperativos como “assim devia ser”, “o que mais teria de ser feito para não perder”, chegando ao incremento de culpabilidade, de exigência, de rigor para consigo mesmo que impede novas escolhas”.

Barbara Conte, psicóloga. Leia mais: Sobre a importância da tristeza

Feliz aquele que pode viver sua tristeza sem culpa ou medo. E entregar-se ao momento de isolamento, de silêncio, de pesar e de poder pensar. Não é possível transformar uma dor sem vivê-la e esgotá-la. É nesse esvaziamento que podemos transformar uma experiência traumática em vivência amadurecida. E nos preenchermos novamente”. Regina de Oliveira Fernandes, psicóloga.

Leia mais: Viva sua tristeza para que seja leve e não perdure

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