Por que as coisas perdem a graça depois que as conquistamos?

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“Mãe, compra aquela boneca pra mim?”

Isabela, de 7 anos, só fala da boneca nova que sua amiga ganhou de aniversário. Fala, pede, implora, até que sua mãe, com muito sacrifício, compra. Após alguns dias de alegria, a mãe vê a boneca esquecida no sofá enquanto Isabela brinca com outros brinquedos.

João, Engenheiro de 35 anos, após muita dedicação, finalmente consegue a tão esperada promoção: agora ele é Coordenador! Após alguns meses, João fica desanimado com o trabalho pensando em “como deseja o cargo de gerente”.

Por que as coisas perdem a graça depois que as conquistamos?

O pensamento de Jacques Lacan nos ajuda na compreensão deste fenômeno. Pensemos o seguinte: somos corpo e fala. Sentimos algo no corpo e tentamos “traduzir” o que se sente através da fala (linguagem). Obviamente, essa tradução não é perfeita, como qualquer outra tradução também não o é.

O Ser Humano é marcado por um “buraco”, uma “falta”, algo que Chico Buarque tentou descrever em sua música “O Que Será (À Flor da Pele)”, mas que não consegue ser nomeado: trata-se do “Objeto a” (uma das grandes contribuições de Lacan para a Psicanálise). O “Objeto a” é aquilo que falta e que, ao ser nomeado, se desloca para um segundo lugar. Ao nomearmos este segundo “Objeto a”, ele vai para um terceiro lugar e assim por diante. Ou seja, é um objeto de desejo e, ao mesmo tempo, causa do desejo. Ao ganhar a boneca, Isabela passa a desejar um outro brinquedo; quando ela conseguir este segundo brinquedo, passará a desejar um terceiro e assim por diante.

Mas então nunca ficaremos satisfeitos?

Ao ser questionado sobre a definição de amor, o poeta Charles Bukowski diz: “Amor é como quando você vê a névoa de manhã quando você acorda antes do sol nascer. É um breve instante que depois desaparece”. A nossa satisfação é fugaz, é momentânea como o primeiro raio de sol ao amanhecer. Ela pode ser a boneca da Isabela; a promoção de emprego do João; o instante do gol do seu time de futebol favorito; o momento de um orgasmo; um dia de aniversário; um beijo ou simplesmente o instante em que um bombom Lindt estoura dentro da sua boca…

A felicidade está justamente na jornada, na busca, nos deslocamentos dos “Objetos a”. Isabela deseja a boneca hoje, amanhã desejará um celular novo, mais tarde desejará ser uma advogada, depois desejará casar e, um dia, poderá ouvir de sua filha a seguinte frase:

“Mãe, compra aquela boneca pra mim?”

Jardel EstevãoPsicólogo e Psicanalista

Você é um eterno insatisfeito? Entenda por que as conquistas perdem a graça. Leia mais.

 

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