Permitir-se um momento de ócio é um ato de rebeldia

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Escrever sobre ócio é lançar luz sobre o próprio processo de escrita sobre o ócio. Para escrever algo, é necessário parar. Mais que isso: não basta parar o corpo em uma cadeira e as mãos sobre o teclado, é preciso parar o pensamento em cima de um tema e continuar ali, por um tempo, olhando para ele. É preciso fazer silêncio na sala onde você vai se concentrar para escrever, mas também tem que haver silêncio na sua cabeça. Parar o corpo às vezes não é tão difícil, principalmente depois de um dia de trabalho, seja fora ou dentro de casa. Mas brecar os pensamentos… isso é quase uma arte.

Para escrever esse texto sobre ócio, precisei de vários momentos de “não fazer nada”. Entre aspas, porque nunca se faz exatamente nada. Se você existe, está fazendo alguma coisa. E o ócio é alguma coisa. Você pode não entender o que o Bauman* quis dizer com ‘tempo líquido’, mas em qualquer conversa entre vizinhos no elevador ou no almoço em família falamos muito convictos que as coisas estão mudando muito rápido e o tempo parece estar acelerado. Essa sensação não surge à toa: estamos mesmo muito, mas muito ocupados. Precisamos fazer, precisamos saber, precisamos ter visto todos os memes da semana, precisamos conhecer todas as piadas de whatsapp, saber dos porquês de todas as manifestações que acontecem na avenida Paulista, precisamos entregar aquele relatório, precisamos comprar leite, precisamos… Ficar “sem fazer nada” (vou usar as aspas até convencer você de que não existe fazer nada, tá?), nesse mundo onde reina o “tem que” é quase uma heresia. Como assim você ficou sem redes sociais? Sem assistir TV? Sem fazer academia no seu tempo livre? Ficar “sem fazer nada” é na verdade ficar sem fazer apenas uma coisa: é ficar sem se cobrar de fazer alguma outra coisa que não seja se acalmar e desacelerar.

Permitir-se um momento de ócio é um ato de rebeldia. É uma revolução interna. Permitir-se deitar na grama de um parque num domingo e ficar olhando para as nuvens para ver que formato têm é quase uma ofensa. A quem? Uma ofensa ao modo de vida que levamos, rápido, intenso, tem que, tem que, tem que… Mas tem que parar também. Tem que brecar essa bicicleta que desce sem freio ladeira abaixo. Tem que dizer para si mesmo que não tem que nada. Que eu posso ser dono ou dona do meu tempo e usá-lo como eu quiser. Até com o ócio. Que eu posso ficar pensando na vida, que eu posso pegar álbuns de fotos e ficar horas olhando e lembrando. Isso não é “nada”, é muita coisa. Você vai ver o tanto de pensamento e de sentimento que vai aparecer. Alguém vai dizer que você está ali há um tempão “fazendo nada”. Mas aí você vai sorrir por dentro porque você já vai ter entendido que não existe esse negócio de não fazer nada, que sempre estamos fazendo alguma coisa, nem que seja descansando, dormindo ou tendo um momento de ócio puro.

Exercitar o ócio é exercitar o domínio sobre o que você faz com o seu tempo, mas também é preparar a terra para que ideias brotem. Quando paramos o corpo e aquietamos a mente, começamos a processar as informações. Limpamos a mesa de trabalho para poder trabalhar, lavamos a louça e a pia para poder cozinhar. O mesmo acontece com o processo criativo. É preciso ter espaço livre para que as ideias possam ser vistas, é preciso ter silêncio mental para ouvi-las. É preciso tempo para que elas tomem forma, para que você anote, coloque aquela ideia à prova… Alguém vai argumentar que precisamos de estímulo para que as ideias surjam. É verdade! Como a planta precisa de água! Mas estímulo demais afoga a ideia. É preciso cuidar da ideia. Podar. Colocar mais estímulos. Deixar ela quietinha um tempo. Voltar depois.

Foi assim com esse texto. Pensei nele tomando banho, enquanto lavava louça, enquanto estava no ponto de ônibus “fazendo nada” (já posso deixar as aspas de lado?). Anotei algumas coisas. Esqueci do texto por um tempo, enquanto estava descendo a ladeira dos compromissos. Percebi que precisava brecar de novo e ignorei redes sociais por uns dias. O silêncio foi chegando. Reguei as plantas da casa e as ideias foram voltando. Varri a sala. Deitei no sofá. Li algumas páginas de um livro, escrevi um pouco. Trabalhei bastante, cansei muito, me inundei de informação. Dormi. Lavei a louça, arrumei a casa, abri espaço na mesa e sentei. Pronto: as ideias já estavam brotando. Agora é só colher. Sem culpa por ter desacelerado, sem medo de perder o bonde da vida. E quando alguém me perguntar o que eu fiquei fazendo hoje a manhã toda eu posso responder que estava super ocupada escrevendo um texto ou posso simplesmente responder, sorrindo por dentro: NADA. E sem aspas.

*Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, autor de Modernidade Líquida e de Tempos Líquidos, entre muitos outros títulos.

Ana Paula Hermoso Lopes, psicóloga

Ócio sem culpa. Leia mais aqui

3 thoughts

  1. Excelente texto!
    Eu gosto de praticar o ócio e confesso que não tem sido muito frequente em minha vida.
    Agradeço pela inspiração !
    Sucesso!

  2. Perdeu o sentido a frase que muitas vezes usei. “Nada como não fazer nada e depois descansar”. De fato agora vejo que devo substituí-la.
    Parabéns Ana Paula. Como sempre muita habilidade e talento para escrever.

  3. Oi Paula. Adorei seu texto. Ócio. Estou em busca porque é necessário. Parabéns. Aguardando outros. Beijos.

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