O Poder da Visão: quem tem um ‘porquê’ inventa um ‘como

 


Viktor Emil Frankl foi médico psiquiatra, conferencista e professor universitário. Fundador da Escola da Logoterapia, que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual da existência, sua contribuição não se restringe à psiquiatria especificamente. Sua história de vida – exemplo de resiliência e superação – inspira pessoas comuns que buscam dar um sentido à vida. Judeu austríaco, como prisioneiro em campos de concentração nazistas, sentiu na pele os horrores do Holocausto. Em suas palestras ao redor do mundo, Frankl destacava o poder da visão como uma verdadeira fortaleza para o espírito. Suas obras, ainda hoje e por um longo tempo, nortearão e iluminarão a Humanidade. O título e os trechos em destaque são de sua autoria e emolduram este artigo.

Nada proporciona melhor capacidade de superação e
resistência aos problemas e dificuldades em geral do que a
consciência de ter uma missão a cumprir na vida.

O homem precisa conhecer, aceitar e vivenciar sua missão. Porém, como parte do processo de ressignificação da própria existência, é preciso ir além. Dentre os princípios norteadores das organizações – missão, visão e valores –, propor uma visão de futuro é um dos exercícios mais interessantes. No entanto, quando se trata das nossas próprias vidas, dep-ramo-nos com crenças contraditórias e limitadoras. O conferencista Joel Arthur Barker apresenta uma perspectiva assertiva ao afirmar que visão sem ação não passa de um sonho; ação sem visão é só um passatempo; visão com ação pode mudar o mundo. Isso porque muitos ignoram o fato de que a ação é imprescindível à realização de qualquer coisa que se possa chamar de visão, sonho, projeto etc.

Ensinaram-nos, desde a infância, que o futuro a Deus pertence. Esta crença tira-nos o poder de construí-lo passo a passo. E contradiz a premissa básica do pensamento judaico-cristão, a de que o homem é provido de livre-arbítrio.

O ser humano não é completamente condicionado e definido. Ele
define a si próprio seja cedendo às circunstâncias, seja se insurgindo
diante delas. Em outras palavras, o ser humano é, essencialmente, dotado de livre-arbítrio. Ele não existe simplesmente, mas sempre decide como será sua existência, o que ele se tornará no momento seguinte.

É fato que não temos o poder de mudar as circunstâncias da vida, assim como Frankl não foi capaz de impedir o assassinato de sua esposa, pais e irmãos. Ele, porém, manteve-se iluminado por um propósito. Era preciso que sobrevivesse para cumprir sua missão: ajudar outras pessoas a enfrentar e superar seus traumas.

Se percebermos que a vida realmente tem um sentido,
percebemos também que somos úteis uns aos outros. Ser humano
é trabalhar por algo além de si mesmo.

Ele criou uma visão forte e positiva na qual alicerçou sua obra e sua vida. Encarcerado, sofrendo maus-tratos e testemunhando os mais bárbaros crimes contra a Humanidade, o psiquiatra dedicou-se a ajudar seus pares e a produzir boa parte da tese que, anos mais tarde, daria origem à Terceira Escola Vienense de Psicoterapia. Outros prisioneiros, no entanto, concentraram suas energias numa projeção de vingança. Ao concretizarem seus intentos, estes homens e mulheres viram suas vidas perderem o sentido enquanto que Frankl manteve-se produtivo até o fim de sua existência.

Devemos transformar os aspectos negativos da vida em algo construtivo.

O segredo do sucesso está na proposição de uma visão forte e positiva. A visão das organizações, para um determi-nado horizonte de tempo, observa à risca esta premissa. No entanto, quando se trata de pessoas, não é raro ouvirmos projeções fracas e negativas. Como você se imagina daqui a dez anos? – Pergunte a alguém. A resposta mais provável é um simples não sei! Mas, há quem imagine um futuro sombrio. Quantas vezes você ouviu coisas do tipo: Ih! Com esse governo, não sei nem se terei aposentadoria!; Com o colesterol nas alturas, não sei nem se estarei vivo! Cuidado! Estas afirmativas são po-derosas, porém extremamente negativas. E quando questionadas, estas pessoas justificam-se com certa lógica: não sou pessimista, sou realista! Mas, afinal, quem cria a realidade?

Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim,
transforme-a. Quando a situação não puder ser
transformada, transforme-se.

Você já ouviu a expressão ônus e bônus? Desejamos o prêmio – um relacionamento amoroso saudável, um em-prego que nos realize, boa saúde… Entretanto, nem sempre estamos dispostos a pagar o preço por isso: declinar ao fute-bol das quartas-feiras com a galera do escritório, abrir mão da estabilidade do emprego por um empreendimento arris-cado, mudar hábitos pouco saudáveis… Lembre-se do que disse Barker: visão com ação pode mudar o mundo. Por ora, mudar a si mesmo é o que basta.

Não sou fruto do passado, sou fruto de uma mudança
assumida e vivida com intensidade.

Um dos aspectos mais fascinantes no processo de coaching está no fato de que tomamos consciência de que somos responsáveis por nossas vidas. Sem exceções, todos concordam com esta afirmativa. No entanto, aquele mas que vem logo depois é que muda todo o sentido da frase: somos responsáveis por nossas vidas, mas…

Por 40 anos, acreditei que não seria capaz de dirigir. Havia tentado, aos 18 e 30 anos, obter a CNH sem êxito. Imaginar-me guiando, causava-me pavor (sintoma emocional) e ânsia de vômito (sintoma físico). Com frequência, era motivo de chacotas e isso contribuía para colocar abaixo minha autoestima que já não era lá essas coisas. Em 2010, comprei um carro zero e nem assim aventurava-me a guiar pelo bairro. Temia causar um acidente, machucar-me ou ferir alguém. Determinei-me a fazer a autoescola e aprender de fato.

Durantes as aulas, tremia e suava frio, mas estava firme no meu propósito. Submeti-me a seis (!!!) exames de direção até ser bem sucedida. Mesmo depois de conquistar a CNH, sentia-me insegura. Acreditava que somente com a prática seria capaz de mudar este quadro, por isso dirigia diariamente, desafiando meu medo, dando preferência a vias congestionadas, declives e aclives íngremes. Dirigia melhor a cada dia, mas não superava o mal estar. Busquei um subterfúgio bem simples: ao deitar, procurava visualizar outro cenário: via-me, num futuro próximo, guiando serenamente por ruas e rodovias movimentadas. Imaginava-me a Penélope Charmosa, elegante e segura, guiando meu automóvel e enfrentando, com certo glamour, as loucuras do trânsito. Assim como a personagem dos desenhos, eu sempre contornava os obstáculos e chegava em segurança ao meu destino.

Considero-me, hoje, uma motorista razoável e sinto prazer em dirigir. Às vezes, sair por aí funciona como uma verdadeira terapia antiestresse. Embora pareça um processo natural, assevero que dominar esta nova habilidade só foi possível porque (1) reconheci minha incompetência, (2) desejei aprender, (3) agi efetivamente e (4) criei uma visão forte e positiva que ajudou a tornar realidade um sonho acalentado por anos.

A tentativa de enxergar as coisas numa perspectiva engraçada
constitui um truque útil para a arte de viver.

Esta brincadeira pode ser um exercício para uma mudança de paradigmas. É preciso dar um primeiro passo. Mudar o padrão mental para projetar uma visão forte e positiva pode começar assim e, com o tempo ir tomando uma forma cada vez mais grandiosa (cuidado para não se escravizar por ideias megalomaníacas) – e saudável. Não é fácil passar a vida inteira culpando os outros e as circunstâncias e, de repente, perceber que resultados dependiam apenas da tomada de decisão assertiva.

Quem vive reclamando, geralmente, encontra motivos reais para reclamar; quem vive agradecendo, geralmente, encontra motivos para agradecer. Isso porque o coração agradecido comunica-se com Deus e o queixoso relaciona-se com Satanás, afirma Mokiti Okada. O mal aqui referenciado não tem chifres nem usa tridente, ele representa o nosso pior inimigo; o eu inferior, que nos puxa para baixo, desmotiva, desanima e corrompe nossa alma imortal da qual emana luz e de onde provém o poder infinito do Criador.
Protagonismo implica responsabilidade; escolhas acarretam consequências. Por isso encerro este artigo com uma das mais curtas e belas citações de Frankl:

Aquilo que emite luz deve suportar o calor.

Andrea Guerreiro de Souza, coautora da obra Gestão Pessoal e o Ciclo SPR

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