Ócio criativo: possibilidade de ressignificação da vida

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Vivemos num tempo onde é primordial não se perder tempo! Ser produtivo, pró-ativo, dinâmico e workaholic é sinônimo de status e competência numa sociedade embasada nas forças do capitalismo e da produção em massa.

Fruto da pós-modernidade, a Síndrome de Bournot, caracterizada pelo esgotamento mental em virtude do excesso de trabalho, tem ocupado um lugar significativo no ranking de queixas dos consultórios de medicina do trabalho, psiquiatria e psicologia, além de outras queixas comuns ligadas ao sentimento de vazio emocional, falta de sentido da vida, que vem acompanhado por crises de ansiedade, perda da qualidade do sono, sentimentos de angústia e ideias depressivas.

Estar só e gostar de estar só não se encaixa no mundo conectado e em rede que estamos vivendo. Não podemos ficar off nunca, pois se ficamos temos a sensação que perdemos alguma coisa.

O descanso, a quietude, a reflexão, o silêncio, a observação da vida e o ócio passaram a ter significados pejorativos e desqualificantes – pois o importante é estar conectado, não perder oportunidades e ganhar dinheiro! Ou seja, viver transformou-se numa oportunidade de negócio rentável. As relações devem ser lucrativas e destituídas de um alimento pessoal que nutre a alma.

Mas nem sempre foi assim. Na Paris do Século XIX nascia a figura do flâneur, que pode ser definido por aquele que praticam a flânerie como passeios sem rumo pela cidade, descanso nos bancos das praças, caminhadas por prazer, observação das construções, em busca de novas emoções e encontros vivos consigo mesmo, e com o que a cidade lhe oferece. O flâneur tem a cidade como ressignificante da vida e construtora de sua subjetividade, pois permite observar e ser observado, sem a necessidade obrigatória de se produzir nada. Apenas sentir.

Nos dia de hoje, podemos dizer que o flâneur de Paris do Século XIX se assemelha ao conceito pós-moderno de ócio criativo, uma contra-força necessária para o não adoecimento do homem do Século XIX.

Sendo assim, é nesta aparente inatividade que sensações e emoções fazem brotar novas ideias, novas subjetivações, e novas ressignificações da vida.

 

Daniele Passos, psicóloga clínica

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