“Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço”

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“Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.” Tem-se que a frase apareceu pela primeira vez nos escritos de John Selden, jurista e parlamentar do século XV. Dizem que esta frase surgiu para exemplificar o que a Igreja Católica fazia na Idade Média, quando pregava que seus fiéis não acumulassem bens e, no entanto, a própria Igreja construía catedrais exuberantes e seus padres e bispos viviam em fartura enquanto o povo morria de fome e doenças.

Quando pensamos em nosso mundo de mídias sociais podemos nos deparar com exemplos de pessoas perfeitas, com vidas perfeitas, expondo seus valores morais. Entretanto, quando aproximamos nossa visão da realidade percebemos as discordâncias entre os discursos radicais de “certo/errado” e as atitudes das pessoas. Atitudes são movimentos.

Segundo Stanley Keleman, anatomia é comportamento, nossas emoções e atitudes são padrões que fazem parte de nossos movimentos. Emoções e atitudes são aprendidas, se tornam hábitos e são padrões de movimento muitas vezes herdados que estabelecem a maneira como reconhecemos a nós mesmos, como criamos significados, damos formas a nossas perspectivas e ocupamos nossos lugares no mundo e nas relações. Cada um de nós está inserido em uma realidade histórica, governada por normas, valores particulares e sistemas políticos e econômicos únicos. Muitas vezes menosprezamos essa realidade, pensamos que é inevitável e imutável. Yuval Harari diz que nos esquecemos que nosso mundo foi criado por uma ordem acidental de eventos e que a história deu forma não apenas a nossas tecnologias, política e sociedade, mas também à forma como pensamos, aquilo que tememos e nossos sonhos. Raramente tentamos nos desamarrar e visualizar futuros alternativos daqueles traçados para nós por outros.

Porém, podemos abrir possibilidades para criarmos novas histórias e novos significados. Podemos aprender a sermos coerentes com nossos processos de vida e autênticos com nós mesmos, integrando nossos movimentos. Stanley Keleman aponta que, ao escolher não fazer o que nos dizem ser o certo, perdemos um sentimento de segurança, muitas vezes o respeito da comunidade em que estamos inseridos, pois não estamos de acordo com as normas pré-estabelecidas. Entretanto, ganhamos outro tipo de respeito, estabelecemos em nós mesmos o sentimento de uma atitude autêntica, uma vida autêntica. E, segundo o autor, o sentimento de uma atitude autêntica, por mais curto que seja, é bem melhor do que uma vida cheia de tédio.

Talvez, um dos primeiros movimentos em busca da autenticidade seja questionar. O questionamento das regras “naturais”, dos “líderes”, daquilo que “sempre foi assim”, dos discursos que separam pessoas. O questionamento das incoerências, daquilo que se prega, entretanto, não se faz. Como diria Alfred Adler: “Confie apenas no movimento. A vida acontece no nível dos eventos, não das palavras. Confie no movimento.”

Daniela de Oliveira, psicóloga

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