Destino de Origem: todos temos. O que é e como vencê-lo

 

 

Você já ouviu falar de Destino de Origem?

Quem me conhece sabe que tenho uma propensão ao realismo e ao sarcasmo. O que a maioria não sabe é que herdei essas características da minha mãe. Tudo para ela sempre é muito simples, branco ou preto, certo ou errado, direita ou esquerda…

Minha mãe nunca acreditou em sonhos, nunca esperou que a vida lhe desse mais do que o que se espera para alguém do seu tipo, seja que tipo for – mulher, pobre, iletrada, cristã e todas as palavras que nos colocam naquelas caixinhas alinhadas nas prateleiras da vida.

Apesar desse olhar pragmático para a existência, minha mãe ensinava a quem quisesse com ela aprender que o futuro nós construímos desde cedo, que não se deve sonhar apenas – porque quem sonha muitas vezes dorme no ponto – mas que é preciso batalhar, dia após dia, pelo que se acredita e pelo que se quer.

Lembro de uma ocasião, no auge dos meus saudosos 10 anos, em que, cansada das correrias e brincadeiras de rua, me atirei sobre a cama de minha mãe enquanto ela pregava alguns botões e cerzia algumas meias (falava-se assim naquela época). Fiquei olhando o movimento da agulha, curtindo o tédio inerente de quem tem o mundo pela frente. Minha mãe questionou: “não tem tema pra fazer, filha?”. Com um ar displicente respondi com um “desentusiasmado” “não ‘tô’ com vontade”. Sem tirar os olhos da costura, com a mesma calma de antes e como se aquilo fosse banal, sua única observação foi: “tá certo… tu tá na quarta série, já sabe ler e escrever, pra empregada doméstica já é o suficiente… Pra que estudar mais, não é?”

Arregalei meus olhos, dei um pulo da cama e fui rapidamente para os livros. Com aquela simples observação minha mãe me fez ver que para ir além da sua programação original, aquilo que podemos chamar de “destino de origem”, há um esforço muito maior, que exige muito mais aplicação e trabalho do que para quem já tem o caminho parcialmente trilhado (ou um destino de origem “melhor posicionado”)

Arregalei meus olhos, dei um pulo da cama e fui rapidamente para os livros. Com aquela simples observação minha mãe me fez ver que para ir além da sua programação original, aquilo que podemos chamar de “destino de origem”, há um esforço muito maior, que exige muito mais aplicação e trabalho do que para quem já tem o caminho parcialmente trilhado (ou um destino de origem “melhor posicionado”). Eu sou filha de pedreiro. Seria diferente se fosse filha de médico? Com relação ao que se espera como “destino de origem”, certamente sim. Vejo que a questão já então dizia respeito não a maior ou menor valia desta ou daquela profissão, mas da possibilidade de ir além do que a minha situação inicial previa. A grande diferença era se eu buscaria ou não realizar meu sonho de expandir a caixa em que fora colocada quando nasci.

Confúcio já dizia que “sonhar com o impossível é o primeiro passo para torná-lo possível.” A simplicidade da minha mãe me fez ver que não se trata de sonhar, apenas, mas de ‘correr atrás’, esse conceito desconhecido pelas novas gerações. Eu não tinha, na infância, muitos caminhos a seguir, e isto é o que ocorre com a maioria das pessoas, e escolher o caminho certo dá trabalho. O caminho certo não envolve apenas fazer o que é legal ou moralmente correto, mas também fazer aquilo que reverbera no nosso interior, aquilo que queremos e do que nos orgulhamos.

Vejo tantos colegas que possuem um espírito livre sofrendo em empregos formais, pessoas que se formaram em Direito querendo ajudar pessoas e que sofrem diariamente por estar inseridas no mundo corporativo, médicos cujo sonho era sarar a humanidade e que se encontram atolados em consultas insignificantes de males inventados pelo próprio ser humano, artistas que escolhem profissões tradicionais unicamente por medo de não conseguir dinheiro suficiente para sua subsistência… Fazer escolhas não é uma tarefa fácil, mas é a única tarefa sobre a qual temos total controle.

Minha mãe tinha dificuldade em entender que o que ela queria para suas filhas não era nada além de um sonho e, com isso, incutiu em nós o desejo de planejar e realizar.

Muito se fala que a nova geração não dará resultados no mundo corporativo – e isto não é necessariamente um mal – porque são jovens imediatistas e acreditam que tudo está ao alcance de suas mãos. Em termos de sobrevivência, isto provavelmente será um grande problema, pois nós, os “sábios” nascidos no século passado, sabemos que não há recursos e possibilidades para todos. Temos uma geração muito boa em sonhos, mas que não tem ideia do que seja planejar e este é o risco do sonho: imaginar que tudo no mundo acontece num passe de mágica.

A questão é que o acesso à informação desdiz qualquer pesquisa ou estudo sério a esse respeito. Pululam na rede casos de youtubers que ficaram milionários com um canal falando sobre tudo e nada, startups criadas em um apartamento que passaram a render milhões com ideias muitas vezes até simples, especuladores que ganham dinheiro sem construir absolutamente nada. E então vem o pensamento: “se eles fizeram, a minha vez vai chegar também, vou ter uma ideia que vai impactar o mundo e ficarei milionário!”

O que a maioria não vê – ou não quer ver – é que mesmo por trás disso houve um grande planejamento. Nenhuma startup nasce do nada para o sucesso. Envolve investimento, não só financeiro, mas de tempo, paciência e muita tentativa e erro.

O que a maioria não vê – ou não quer ver – é que mesmo por trás disso houve um grande planejamento. Nenhuma startup nasce do nada para o sucesso. Envolve investimento, não só financeiro, mas de tempo, paciência e muita tentativa e erro. Na fase do planejar é que muitos sonhos são abandonados, às vezes com sabedoria, porque nem tudo que sonhamos é viável, às vezes por ansiedade ou descrença no próprio potencial.

Como definiu Ambrose Bierce: “Planejar: preocupar-se por encontrar o melhor método para conseguir um resultado acidental.” Apesar dessa definição do sarcástico Bierce, o certo é que sem planejamento dificilmente o resultado, ainda que acidental, acontece. A realização sem qualquer planejamento apenas é possível àquela pequena gama de afortunados para quem a vida acontece no ritmo e forma certos, sem qualquer esforço, mas se isso não aconteceu com você até agora comece a imaginar que talvez você integre os 99% que precisam batalhar para concretizar seus projetos…

Quantos meninos e meninas prodígio têm uma vida adulta de desespero por não alcançarem a totalidade de seu potencial, geralmente por força de acreditarem que suas qualidades eram suficientes para que a vida retornasse os benefícios decorrentes de suas habilidades.

“São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas qualidades” – esta frase de Alvo Dumbledore (J.K. Rowling) nos faz lembrar que o que define nossas vidas é o que fazemos de fato. De nada adianta ter muitas qualidades se elas não retornam em nada concreto. Quantos meninos e meninas prodígio têm uma vida adulta de desespero por não alcançarem a totalidade de seu potencial, geralmente por força de acreditarem que suas qualidades eram suficientes para que a vida retornasse os benefícios decorrentes de suas habilidades. Mas, como diz a música de Ana Vilela, “a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”. A vida passa muito rápido, somos apenas um grão de poeira no universo, mas podemos aproveitar esse curto recorte de espaço e tempo para construir algo além de nós mesmos, para construir a pessoa que queremos ser e a realização dos nossos sonhos está apenas em nossas mãos e, se não está, talvez esse sonho não seja realmente nosso.

Por Clarisse Rozales | Coautora do livro Gestão Pessoal e o Ciclo SPR

2 thoughts

  1. Bom dia. Quando era criança queria muito ser médica, talvez a infância no traga a impressão de que tudo seja fácil, embora não seja bem assim. Ao longo da adolescência, período de intensa efervescência dos pensamentos, prazeres e sabores da vida, me vi diante do finito. Tudo aquilo que almejava ser, tornou-se uma incógnita sem resposta. Busquei entender porque o medo, se a vida nos leva a isso de uma forma ou outra. Desisti. Mas nunca perdi meu senso de responsabilidade com aquilo que desejava, continuo na área da saúde. Hoje sou psicóloga, e talvez pelo sim ou pelo não, compreendi que não existe nada mais importante e autentico do que o sofrimento que, muitas vezes, se traduz em dor física. Compreendo que me tornei uma pessoa mais humana, com as possibilidades de histórias que ouço, talvez não tendo a mesma oportunidade em outra profissão. Att, Claudia

  2. DESTINO DE ORIGEM
    Cresci em um consultório veterinário. Volta e meia, ajudava minha mãe com pinças, agulhas, garrotes e outros tantos procedimentos do dia a dia daquela acolhedora clínica. Adorava ajudar… muitas vezes ficava esperando seu chamado.

    Gostava dos animais, dos procedimentos, do ato de curar. Admiro a profissional que minha mãe é. Embora sua clínica esteja fechada hoje, pois como mesma fala, tornou-se “vóterinária”, ainda levo meus gatinhos para ela cuidar. Só confio nela. Na verdade, só confio nela como médica não só para meus animais, mas para minha filha e para minha saúde também. É uma médica de mão cheia. Não precisa dos intermináveis exames… tem um feeling que só os profissionais de alma o possuem…

    Isso sempre me chamou a atenção: ser um profissional de alma. Fazer as coisas com a alma, com o coração. Ela nunca se preocupou com dinheiro, embora lembro de vê-la trabalhar madrugadas a fio. Seu foco sempre foi o animal…

    O consultório era lotado. Muitos gatinhos, cachorrinhos, alguns macaquinhos e passarinhos também alegravam nossos dias.

    De tudo, o que mais gostava não era da sala de atendimento ou da sala de cirurgia. Amava mesmo a sala se espera… adorava ficar conversando com os donos de animais, consolando, muitas vezes suas dores.

    Inúmeras vezes ouvi dos clientes da mamãe: “-Que linda, vai seguir veterinária?”. Obviamente respondia: ‘-Não!” Vou trabalhar com a mamãe, mas na sala de espera, cuidando dos donos.

    Se eu seguisse os passos da mamãe seria muito mais fácil, pois a clínica estava montada, a carteira de clientes era gigantesca e tinha tanto material… e os livros… Nossa, outro dia mesmo a mamãe se desfez de alguns: doou para uma faculdade da região. O Professor ficou maluco! Pudera, eu no lugar dele também ficaria. Se fossem livros de psicologia, piraria.

    Seria muito mais fácil seguir a medicina, não por ser um curso fácil, mas por ter as facilidades
    à mão. Resolvi seguir o que acredito: o caminho da vocação! Segui meu coração! Minha vocação! Sou Psicóloga de alma e profissão. Adoro trabalhar com gente, transformando vidas. Curo feridas que não são visíveis, mas profundas. Curo as dores da alma.

    Faço meu trabalho com todo amor que aprendi naquele consultório veterinário. Coloco minha essência em cada atendimento. Coloco meu amor em cada paciente.

    Seria muito mais fácil seguir o destino origem, mas definitivamente, seguir o caminho do meu coração, cuidando de almas feridas e mentes conturbadas me trouxe muito mais prazer e realização.

    Eu achei meu propósito: cuidar de almas. E você?

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