Coragem para se permitir

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Segundo os autores Ingrid Borba Hartmann e Sidnei Schestatsky, ambos médicos psiquiatras, em artigo para Revista Brasileira de Psicoterapia, baseando-se pela parte filosófica estudada por Freud que buscou associar a mitologia aos seus conceitos, tratou-se do tema da transgeracionalidade como uma ordem de herança vinda de ancestrais semi-deuses, que anteriormente até confundiam a forma como foi concebida a ideia de mundo. O que querem dizer com isto?

Dentro deste ponto de vista, ao pensar em herdar de seus ancestrais culturas, comportamentos, ideologias e valores que podem ter origem a partir de três gerações anteriores, temos heranças geracionais vindas de nossos bisavós.

Segundo Schestatsky e Hartman (2011) citando Freud:

Para compreender a transmissão do psiquismo entre sujeitos, e entre gerações, é fundamental compreender a relevância do papel do outro na formação do psiquismo do sujeito. As considerações pertinentes à transmissão psíquica entre gerações são encontradas já em Freud, em Totem e tabu (1913), ao se referir à continuidade psíquica na série das gerações – e também em Introdução ao narcisismo (1914), ao destacar que o indivíduo é, em si mesmo, seu próprio fim, mas se encontra vinculado a uma corrente geracional como elo da transmissão, sendo herdeiro da mesma.

A citação dentro do artigo para revista retrata um pouco do que os nossos pensadores dizem sobre o transgeracional:

“Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu”.
Goethe, Fausto.

Segundo Käes(1998):

Em todas as dimensões desta crise, a questão da precedência do outro e de mais de um outro – de alguns outros – no destino do indivíduo persiste como uma espécie de desafio à compreensão da vida psíquica a partir dos únicos limites daquilo que a determina de maneira interna: a questão do sujeito define-se, cada vez mais necessariamente, no espaço intersubjetivo, e mais precisamente, no espaço e no tempo da geração, do familiar e do grupal, ali onde, exatamente – segundo a formulação de P. Aulagnier – o Eu pode vir a ser ou, tem dificuldade de constituir-se. (Kaës, 1998, pp. 5-6)

Após esta pequena introdução de conceitos, podemos voltar às perguntas:

Por que esta supervalorização tem que ser assim?

Na verdade, ela não tem que ser assim. Pensando no atualizado estudo de gerações X Y, algo desta ordem transgeracional aconteceu. Nossos pais e avós passaram por épocas muito difíceis dentro do contexto mundial, herdeiros de guerras, de superproteção para com seus filhos e netos. Para se ter uma constituição familiar boa, precisava-se batalhar, trabalhando, abrindo mão de lazeres ou do que muito se ouve por aí de “besteiras” do mundo tecnológico. Muito se ouve: “Na minha época não tinha isso…”; “Na minha época era diferente…”. Isso demonstra certa dificuldade em mudar. Boa parte das pessoas custou a acreditar que o mundo contemporâneo é bem diferente dos vivenciados em época passadas.

Para onde isso irá nos levar enquanto pessoas?

Pessoas que possuem um padrão fechado para novas experiências: isso pode ser um sinal de fixação, ou os famosos lutos mal elaborados de épocas anteriores. Isso faz com que a pessoa se fixe em uma época em que já viveu, enquanto o presente vai seguindo e a pessoa segue fielmente seus ideais retrógrados, ou seja, presa ao seu passado inconscientemente. A sociedade evoluiu. O que antes era muito criticado, hoje pode ser revisto e repensado, gerando uma visão mais ampla frente à possibilidade subjetiva de cada um. Não se trata de “loucura”, “frescura” ou a famosa psicofobia de pessoas que buscam ajuda. À época de nossos avós, existia uma generalização de que a loucura tomava conta da sociedade e graças à reforma manicomial, isto foi revisto. O diferente era isolado, expulso e, para manter uma linha geracional “pura”, não podiam existir diferenças. Podemos ir muito além. Quando pensamos na Segunda Guerra Mundial com Hitler, por exemplo, diziam que a raça caucasiana austro-germânica era superior aos judeus. Após muitos estudos sobre a personalidade dos nazistas, identificou-se que a mesma vem de uma ordem fanática e fiel às suas origens passadas, algo que talvez tenha sido reprimido. Ao vir o poder grupal que o nazismo criou em toda Alemanha, tal personalidade foi expelida de forma impressionante durante o Holocausto, algo que marcou uma geração inteira de judeus e o mundo com tamanha crueldade.

Após ler muito sobre seus conceitos dentro da psicanálise, posso afirmar algo que praticamente seria um dilema e muito visto em meu consultório:

“Aquilo que não enfrentamos na vida, acaba se tornando nosso destino”

Podemos dizer que a maior insatisfação contemporânea para os neuróticos clássicos e a ambientação da contemporaneidade é a culpa de viver o presente diferente daquilo que foi revivido pelos pais. Isso gera sentimentos de culpa, muitas vezes pedindo claramente: “Me permita dizer que posso fazer algo, pois minha família diz que não posso, a sociedade diz que não posso, a religião diz que não posso, e etc”. O que condiz com a dificuldade de sair deste fardo criado pelas gerações passadas: “O que é suado é mais gostoso”; “Se fosse fácil não teria graça”. Talvez, o medo de ser punido, seja pelo outro, seja por si mesmo, é tão insuportável que, infelizmente, muitas pessoas se submetem a estas questões.

O que é indicado para estes casos: Psicoterapia e Análise Pessoal.

O que desejo a nós, pobres mortais: Coragem para se permitir, pois muita coisa que anteriormente era “errado”, pode ter certeza que é questionável.

Por Carlos Augusto Gonçalves Muramoto, psicólogo e psicanalista

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