A vivência instantânea e o desafio da não fragmentação

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Na hipermodernidade ou pós-modernidade, as Novas Tecnologias da Informação (NTIs) operam no núcleo da subjetividade humana, no seio das nossas memórias, inteligência, sensibilidade e afetos, em que estão imersos novos tipos de relações e modos de existir. A cibercultura, hoje desenvolvida em rede, envolve usuários numa conexão generalizada, conectada em tempo integral, modificando a subjetividade. Estudos mostram que muitas pessoas buscam as NTIs tanto para se comunicar, como, paradoxalmente, para se isolar. Parece que o isolamento promovido é devido ao desgaste das relações interpessoais, que então substituem por contatos mediados por uma “proximidade” tecnológica. Talvez, por isso, alguns estudiosos acreditam que o uso excessivo das NTIs possa fragmentar a identidade do indivíduo.
Os diversos modos de utilização das NTIs são diferentes para cada pessoa – assim como ninguém é igual a ninguém. Diferentes pessoas estabelecem diferentes formas de se relacionar com o computador, dando diversos significados e sentidos a esse objeto. Pode ser um instrumento de trabalho, um utilitário; pode ser um instrumento de lazer e pode ser um instrumento de perversão e patologias – ou as três coisas alternadamente para a mesma pessoa, podendo gerar ideias fragmentadas de si e do outro (que pode ser real ou não), estimulando ações, que poderiam ter sido previsíveis, ‘se’ essa pessoa estivesse no convívio social e familiar e ‘se’ essa se sentisse segura para externar suas angústias e anseios.
Usando o termo hipermodernidade, podemos dizer que a sociedade contemporânea vive uma situação paradoxal, “[…] dividida de modo quase esquizofrênico entre a cultura do excesso e a moderação”, em que a pessoa encontra-se, de um lado, entre a exigência de ser, fazer e consumir de forma demasiada, e, de outro, a necessidade de lidar com o equilíbrio e de ser comedido. Podemos partir do princípio de que o conceito de identidade na pós-modernidade está fazendo uma comparação entre as chamadas ‘velhas identidades’ – que estão em declínio, e as ‘novas identidades’ – que estão surgindo e deixando o sujeito fragmentado. Mas toda mudança gera inquietude, medo, fracassos. Alguns sairão mais fortes e outros nem tanto. Os mais frágeis podem se desestruturar. Os mais estruturados podem crescer.
Existem duas hipóteses: a pessoa se identifica como ser humano e utiliza o computador como ferramenta distinguindo-o de si como algo estranho, oposto (uma máquina). E outra, em que a pessoa se relaciona com o computador como um igual, ou quase, estabelecendo-se num nível de confidente, companhia e amizade ‘real’.
Outra possibilidade é considerar a tecnologia como anonimato e a construção de uma nova Identidade. Aqui o anonimato é visto como estado libertador do sujeito, em que os indivíduos deixam de estar sujeitos à pressão da representação física, que por vezes não coincide com a sua auto-representação. Essa cultura da simulação oferece a possibilidade de “Identidades múltiplas”, ou apenas fantasias, fornecendo oportunidades de autoexpressão.
Mas existe outro aspecto da conversa eletrônica: o subjetivo. O aspecto subjetivo da tecnologia não está no que a informática faz por nós, mas no que ela faz conosco. Ou seja, a satisfação na comunicação quase instantânea. Isso pode ser um ‘cimento’ que dá às pessoas o sentimento de “pertencimento”, uma sensação de que, num grupo ou comunidade on-line, se escreve e imediatamente alguém pode retomar essa própria ideia, desenvolvê-la e remeter-me alguma coisa. Tais gratificações são estimulantes e produzem um sentimento de filiação, de pertencimento ao grupo, de reconhecimento.
Ao trafegar por essas duas esferas, instâncias online e offline, no ciberespaço, e processar seu ser, estar e agir, que o sujeito inteiro se fragmenta. A existência supõe uma performance no tempo e no espaço como construção da realidade de si e das coisas. Se conectar não é um problema, o problema é a hiperconectividade como condição de conexão contínua e generalizada na qual a pessoa está imersa através de seus dispositivos móveis de acesso à internet.
Vários hábitos da vida cotidiana são afetados pela forma como nos relacionamos com/pelas máquinas. Um deles é o hábito de escrever, mais especificamente das escritas de si, ou seja, da escrita como prática autorreferente. Escritas de si, ou falar de si, registros do cotidiano é uma prática saudável como forma de manter os pensamentos sempre à disposição como conversações consigo mesmo ou com os outros, autoconhecimento. O problema está nas escritas compartilhadas de forma instantânea, permeadas pelo imediatismo e pela urgência, compartilhadas e re-partilhadas.
Podemos imaginar que somos outra pessoa que ‘não a real’ e a sim a idealizada, aquela que gostaríamos de ser, ou aquela que almejamos ser, ou aquela que invejamos ser. Quando “nos mostramos” nas redes estamos ao mesmo tempo inventando quem somos enquanto sujeitos, tanto na vida online como na vida offline, com a diferença de que a internet é uma tecnologia que permite formas de expressão não antes imaginadas.
Na hipermodernidade, a vivência instantânea é do que está acontecendo no momento, regida por um imediatismo que paira sobre várias esferas da vida, em que, na lógica dos hiperconectados, esperar é perder tempo. Os relatos instantâneos são feitos para serem lidos em tempo real, como a novidade da informação; porém, ao mesmo tempo, esses fragmentos de vida, expostos em breves escritas, imagens, vídeos, registrados em formato de linha do tempo, formam uma espécie de diário, uma história pessoal. Porém, mesmo que estejamos diante de escritas instantâneas ou fotografias compartilhadas em tempo real em um feed de notícias, que se multiplica em diferentes telas, uma vida, ainda existe entre o acontecimento e o seu relato um certo tempo de elaboração do que foi vivido, por menor que seja. E é esse pequeno ‘espaço real’ que precisa ser preservado. É esse pequeno e mínimo tempo que precisamos captar, olhar.
Desconectar? Acredito que não. A rede é flexível, “conectável” e “desconectável”, tem várias entradas, múltiplas saídas. No universo das redes e da hiperconectividade é preciso aprender a conectar e desconectar, ir e vir.

Maura Castello Bernauer, psicóloga

Online, imaginária, percebida, suposta… De quantas realidades se faz o Eu? Lei mais aqui.

 

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