Nego o ócio, meu neg-ócio é trabalhar!

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São cinco horas da manhã, meu celular tocou, posso dormir mais 15 minutos, penso. Já institucionalizei em minha vida o meu tempo de displicência. Ócio, nem me fale nisso, meu negócio não permite. Estou num ritmo ascendente, mas meu corpo parece não querer concordar. Mesmo institucionalizada, minha displicência pede mais um pouco de relapsidade.
Quando os romanos diziam ócio ou otium, não queriam dizer o mesmo que Domenico de Masi, diziam da atividade intelectual. Quando o negavam, nec-otium ou negócio, diziam da atividade de subsistência da sociedade. Apesar de a palavra ócio estar no conceito de Masi, a criatividade que a adjetiva não deixa margem de dúvida. Ele também tentou institucionalizar o ócio.
As sociedades pós-industriais lidam de modo bem diferente com o ócio. Desde que a preguiça se tornou pecado capital, e o capital tornou-se o Senhor dos homens, o ócio que era praticado em praças, nas ágoras e nos espaços públicos, passou a ser arrolado entre as ocupações e profissões que são aprendidas e regulamentadas nas faculdades e universidades. Necessidade de controle, administração do tempo, aproveitamento do tempo, estrangulamento do tempo, falta de tempo, do tempo livre de ser eu.
Por dois aspectos é preciso refletir sobre esse tempo. Tempo que se não for dado, será subtraído. Nós somos nesse tempo ocupado bem menos do que no tempo que escapa. O lapso, relapso, de sono que meu corpo pede logo cedo e que não dou, se não dou, me submete em um sintoma. Porque eu sou assim, mais no sintoma do que do que onde não sinto, me toma – sintoma, que na sociedade contemporânea funciona como a confissão que absolve o preguiçoso. A depressão, o pânico e suas síndromes. As crises de ansiedade e as agorafobias, agora fobias, descritas nos indexes, DSMs e CIDs. São a licença que temos do Senhor capital para não trabalharmos, para espreguiçarmos, absolvidos pelo sacerdote psi que me oferece suas hóstias sagradas e tarjadas, rivotrilizadas e sertralinadas, lisas, deglutíveis e encapsuladas.
Hoje, mais que ontem, me permito o lapso e procuro entendê-lo como uma mensagem de mim para mim mesmo, me dizendo algo que não sinto mas que me toma. E aprendi a confiar nesse mim mesmo, tão mais eu, que me protege, que me expande, que me aumenta e me redime. Me permito não ser tão escravo da obsessiva necessidade de estar ocupado com algo útil, que de tão utilizado se torna inútil, efêmero, supérfluo. Coisas das quais vou me desapegando. Perder o controle tem me tornado mais autor de mim, menos escravo, menos culpado, menos assujeitado.  Eduardo Antonio Medeiros Souza, psicólogo

Ócio sem culpa. Leia mais aqui

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